Quarta-feira, 21 de Setembro de 2016

Dias sempre iguais

Levanto-me ensonado com o despertador do telefone a arranhar-me o cérebro. Desligo-o um dia mais num gesto impensado. O cérebro empastelado abre uma gaveta e conjuga peças de vestuário, nem sei como funciona bem no fim, mas funciona.

 

 

The Beatles - Help

 

Barba, duche, roupa, pequeno almoço, café, metro, livro... almoço, fruta ... café, empada, metro, livro, padaria, mercearia, casa.

 

Finalmente começa o dia! O que há hoje por aí!?!?!?

Amigos, bares, música, exposições, conversas, jantar... as respostas nos outros. Mesmo que o não saibam, são eles que as têm.

Uma boa conversa compensa a inutilidade do dia de trabalho.

IMG_1316.JPG

 

É só trabalho...


publicado por BigJoao às 15:54
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Quarta-feira, 14 de Setembro de 2016

O mundo mudou

O mundo mudou. A liberdade que antes sentíamos já não existe. Os limites que antes sentíamos também mudaram de sítio.

E esta sensação de ter vivido alguns momentos únicos como se fossem eternos, como se fossem estar lá sempre. Como se o Live Aid fosse acontecer todos os anos, como se a queda do muro de Berlin fosse natural, e a seguir a ela o fim do apartheid e o caminho fosse sempre no mesmo sentido. O caminho da justiça e da compreensão e tolerância.

Olho para trás e esta é a única coisa de que me arrependo. Não ter tido a noção de que eram momentos únicos e que tinham de ser vividos e compreendidos na sua totalidade.

 

X1.jpg

 

De onde surgiram estas pessoas com trajes adaptados aos desertos, que enchem as cidades ocidentais que não construíram nem entendem? De onde lhes vem a legitimidade que seguramente sentem para destruir o que não entendem?

Há um qualquer factor de humanidade que nos esquecemos de lhes preencher. Algo que lhes faça sentir o propósito da sua existência e retire o sentido ao gesto de se fazer explodir.

Destruir não é um bom objectivo de vida, mesmo que seja a própria vida.

 

U2 - Where the streets have no name

 


publicado por BigJoao às 11:30
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Quinta-feira, 19 de Junho de 2014

e tu?

Recordo-me ocasionalmente da tua ausência, do teu espaço dentro de mim, hoje tão reduzido quando comparado com a galáxia de possibilidades que me oferecias. Recordo-me com um misto de saudade e consciência de que a nossa natureza humana vence sempre, que o espaço que ocupaste hoje parece um deserto frio de areia e rocha onde antes florescia uma paisagem verdejante paradisíaca.

 

 

Magoa-me a minha inconsciência de que tudo aquilo poderia nunca mais ter igual, poderia ser único. Que burro! Como pude achar que aquelas emoções eram minhas quando na realidade só as emprestaste? Vivi tudo como se pudesse durar para sempre... éramos deuses sem o saber.

 

 

 

The XX - Intro

 

Hoje olho para dentro, para o deserto, e não consigo imaginar que torrente de água e verde alguma vez conseguirá devolver sequer vida à desolação evidente. Hoje ignoro alguns avanços porque todos me parecem torpes, hoje sei que todo esse espaço é teu, ainda que já lá não estejas. Hoje todo esse espaço me parece inútil embora não o dispense, pois lembra-me que já o vivi. Ocasionalmente alguém o atravessa e espanta-se tentando imaginar a dimensão de tal amor, como uma criança de braços abertos explica o tamanho do mar e com os seus pequenos braços o pensa abraçar.

 

Salgaste o terreno hoje abandonado, sabendo que nem tu nem ninguém o voltaria a usar. Tu porque não te reconheço, não és a mesma de outrora, deixaste a vontade lá atrás algures naqueles dias e já não contas com a minha ajuda. Mais ninguém porque acabo por não o permitir, sem vontade nem vigor, porque nenhuma construção vale a pena se não ambiciona sequer 1% do que lá vivemos.

Partiste é certo, mas o que deixaste para trás, ainda que vazio, ainda lá está.


publicado por BigJoao às 17:20
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Sexta-feira, 7 de Março de 2014

A sentença

Abro o envelope com o coração, só sinto o coração. Nem as mãos sentem o envelope, nem os dedos o papel. Começo a ler e não consigo entender... mas isso foi explicado... mas como é que... a decisão... a decisão é devastadora e impossível de cumprir.

Levanto-me. Sim, tinha-me sentado. Tenho que sentir as pernas, outra coisa além do coração. Tomo consciência como é que as notícias do Correio da Manhã acontecem. Decisões injustas levam a actos tresloucados e só me apetece cometer um qualquer. Claro que não vou fazer nada, mas...

 

Já não me recordo quando é que deixei a minha vida ser arrastada para a justiça. Quando é que dei aos outros espaço para me imporem decisões à martelada.

 

 

Este é realmente o martelo da justiça portuguesa. A vida suspença anos a fio para ver imposta uma injustiça visível na própria sentença, na lógica parcial da argumentação.

 

Tem que ter havido um dia, uma situação, em que fiz uma escolha errada. Esse dia tornou o resto inevitável. O instante imediatamente anterior à avalanche. Aquela que arrasa tudo à sua passagem. No final, se depois aquele castanheiro ficou de pé ou se foi aquele pinheiro, pouco importa. O que importa é a devastação e ela é inegável.

 

Um deserto.

Um deserto gelado de branco frio a perder de vista.

Nem um ser vivo, uma planta, nada.

Uma imensidão de branco estéril

É como me sinto.

Sem dignidade nem ser

Nem nada.

Agarrado por mentiras

que me cercam como uma teia

Apanhado pela aranha

caio e tropeço até deixar de sentir.

Já não me sinto.

 

Ornatos Violeta - Capitão Romance

 


publicado por BigJoao às 12:07
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Sábado, 21 de Dezembro de 2013

A minha cidade

Vestiu a camisola de lã cor de sangue escuro. Com o frio que estava, só mesmo a lã o conseguia aquecer. Pegou no blusão, carteira, chaves e saiu de casa batendo a porta. O som dos seus passos no chão húmido ecoou pelas escadas do prédio. A cada passo a sensação de pisar areia no chão, areia que no verão nem se sente, nem se nota.

 

Iyeoka - Simply Falling

 

Já na rua, o frio descobriu forma de lhe encontrar a pele, nas mãos, no pescoço, na cara. Empurrou as mãos para os bolsos das calças de ganga, mas só se sentiu apertado, preso. Voltou a guardar as mãos nos bolsos do blusão. Tomou a direcção habitual para apanhar o metro. Pelo chão vários castanhos nas folhas de plátano. Os sapatos com sola de borracha manhosa, a chuva e as folhas levaram a pequenas escorregadelas sucessivas. Atravessou a rua para o passeio nu, sem o cobertor de folhas nem o perigo de queda.

Da estação solta-se um ruído de comboios que chegam e partem, misturado com o da escada rolante. Pessoas apressadas, sempre apressadas, sempre com receio de perder o metro, sempre com medo de esperar e se verem perante si mesmas.

 

 

Saiu no Martim Moniz, início da Mouraria. O Centro comercial enorme num dos lados da praça. Atravessou-o e viu-se frente a um bloco de mármore rosa meio esculpido, onde se percebe uma guitarra portuguesa. Entrou na rua do capelão e re-encontrou Lisboa e as suas ruelas. Sentiu-se em casa. Esta é a Lisboa que é boa de viver, a Lisboa do fado. Mas não um fado triste e soturno, um fado alegre e bem vivo. Um fado a cada esquina. Deixou-se entranhar pelo espírito e amou profundamente.

 

Lisboa também é isto.


publicado por BigJoao às 03:35
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Sexta-feira, 20 de Setembro de 2013

A libertação

Talvez tenhamos que nos libertar dos bens materiais para atingirmos a felicidade. Nesse caso estou quase lá.

Talvez tenhamos que nos libertar de toda a zanga e simplesmente aceitar os factos da vida.

Talvez me converta ao budismo, ao islamismo, ao "abdicarismo", ao "desistismo", ao "abstinentismo" e a mais qualquer outro "ismo" de que me lembre.

 

Foto de sem abrigo (Reuters)

foto Reuters

 

E o que é a verdade!? Talvez um dia a verdade aconteça, talvez germine e cresça como um rebento de soja. Talvez a minha verdade esteja errada e tortuosa. Talvez se me libertar de ideias pré-concebidas que desconheço, ela se erga numa coluna de fumo e luz.

 

Olho para uma vida cheia de becos sem saída e apostas falhadas. Diz-se que "o que não nos mata torna-nos mais fortes", e se nos matar? Se nos formos tornando sombras de nós mesmos a pouco e pouco. Os dedos sem sentir a pouco e pouco. As pancadas já sem doer, a pouco e pouco. Sem capacidade de reacção. Um esgar no rosto sem sequer parecer um sorriso, uma careta.

As palavras foram lapidares, a conclusão foi tirada. As chaves do carro ficaram sobre a secretária vazia, a mochila no chão ao lado desta. Sem sentir a cadeira a arrastar, levantou-se e saiu indiferente aos protestos que as coisas não estavam terminadas. Precisava de ar.

Os olhos pequenos, já crescidos de olhar. Os ouvidos cheios de sons, uns bons outros maus. Uns breves outros longos e agudos como estiletes. A narrativa da mentira, a narrativa da boçalidade destrutiva como um buldozer. Cabeças de criança terraplanadas de ideias violentas, de destruição brutal.

 

Ninguém nos prepara para isto quando temos um filho. Ninguém nos prepara para isto quando temos dois. Ninguém.

Tornamo-nos sombras, espectros. Sem rumo, sem norte, sem conteúdo.

Seja feita a vossa vontade.

 

 

 

Tiago Bettencourt - O Jogo


publicado por BigJoao às 02:11
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Domingo, 16 de Junho de 2013

O estado das coisas

Há dois anos que respeitamos o resultado das eleições legislativas, ainda não nos revoltámos nem houve nenhum levantamento popular contra este governo. Somos um povo estranho, quase parece que nos sentimos culpados por termos votado como votámos (eu não votei nele, mas respeito as regras da democracia).

 

Pedro Passos Coelho (PPC) foi talvez o primeiro ministro mais mal preparado alguma vez eleito. Sem carreira académica de relevo nem carreira profissional digna de nota, é natural que não saiba fazer as coisas. Que não saiba trabalhar.

 

Foto: Diário de Notícias

 

Para quem aparenta acreditar tão piamente na economia de mercado, espanta-me que nem sequer repare nos números. Para quem quis tanto ser primeiro ministro, espanta-me a falta de soluções alternativas às políticas que tem defendido, como se fossem as únicas possíveis, como se fossem inevitáveis. Triste político, o que acha que só existe um caminho.

O problema de PPC é que Gaspar até pode torturar os números tentando que eles revelem uma face limpinha da moeda, mas nunca conseguirá apagar a outra face. Já nem sabemos os números correctos do desemprego, pois todos os dias sabemos de pessoas que abandonam o país. Já nem sabemos o valor do défice, pois é sempre mais que o anunciado.

Curiosamente, tenho a sensação que a medida mais penalizadora, a que significou um ponto de viragem, foi mesmo a subida do IVA na restauração para 23%.

 

PPC e Gaspar só têm uma comparação no plano económico internacional, só é comparável a Robert Mugabe!!! Espantados!? Como é possível ignorar a quebra a pique das receitas fiscais!? Só há uma explicação, Gaspar tal como Mugabe, não compreenderam quais eram os motores da economia nacional.

Arruinou as pequenas e médias empresas (médias à escala portuguesa), espinha dorsal da economia e das receitas fiscais. E continuam sem compreender a economia que governam!! Anunciam apoios ao investimento, mas só para empresas que decidam investir mais de 5 milhões de euros!!! Quem é que tem mais de 5 milhões de euros para investir!? Quem os tem vai investir numa economia onde não há justiça, onde as lei mudam todos os anos, onde não há estabilidade fiscal?

Os cafés e restaurantes que fecharam, eram o ganha-pão das receitas fiscais, o problema é que não vão voltar a abrir.

 

PPC talvez só entenda as coisas pela via revolucionária violenta...

 

Robin Thicke - Blurred Lines ft. T.I., Pharrell


publicado por BigJoao às 20:46
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Segunda-feira, 6 de Maio de 2013

Estado gasoso

Dave Matthews Band - If Only

 

 

Hoje levantei-me e passei o dia a fazer coisas. Coisas. Nem me lembro bem o que fiz, mas sei que fiz algumas das coisas que tinha que fazer.

Parece que ando a meio metro do chão. Costumo associar este estado à paixão, mas isso não existe neste momento, talvez seja a nostalgia da paixão.

 

Foto de Walker Evans

 

Há quem defenda que é mau estar apaixonado, mas não me sinto vivo sem paixão, sem amor. Por isso fiz coisas... é o que vou fazendo sem essa emoção que me devora, que me controla.

 

Mudei de casa. Enquanto tiro os livros dos caixotes e os arrumo, encontrei "Os versos do capitão" do Neruda e vieste-me à memória. Tu e a determinação incontrolável que sentia de te ter, de te fazer e ser feliz. Parece inacreditável como continuas viva dentro de mim, como se tivessemos estado juntos ontem. Como se ainda te sentisse o cheiro, o teu corpo contra o meu. Como se ainda sentisse a pele na pele. Se quiser, consigo lembrar-me dos detalhes do teu corpo, dos teus gestos.

 

A vida continua. Fiz uma massada de goulash com caril. Não sei se faça sopa, mas não me apetece sopa; faço amanhã.

Tanta coisa para fazer e tu a pensar em disparates... se não dá, não dá, porque é que insistes!?


publicado por BigJoao às 23:11
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Quinta-feira, 4 de Abril de 2013

Parece mentira

O dia rasgou a noite, como o sol rompeu a chuva. De tempos a tempos procuro o arco-íris sem o descobrir.

 

Mariza - Chuva

 

A vida continua a surpreender-nos aqui e ali, mas as emoções fortes são o que nos faz sentir vivos.

Por vezes somos fortes, outras frágeis, outras somos só espectadores.

Não consigo ser inteiro, nem alto, nem distinguir o principal. Busco o principal mas o secundário distrai-me. Espero dos outros as soluções que não construo. Destruo o que não me destroi, na ânsia do que me desfoca.

 

 

E esta chuva que me inunda a alma em jorros de insanidade. Sinto-me a enlouquecer. Deixei de acreditar em mim, no que faço. Deixei de acreditar na consequência do que faço. Deixei... escapar-te entre os dedos... porque não tinha força para suster-te nas mãos. Como se a areia pesasse toneladas e os dedos cedessem.

Não consigo pensar nem ser razoável, como sempre fui. Tudo me magoa, me atinge... apetece-me chorar toda esta chuva, inundar campos de lágrimas. Para que floresçam malmequeres e papoilas fortes e viçosas de emoções choradas, mortas.

Tudo se mistura numa amalgama indistinta de amores, família, trabalho. Tudo.

 

Lembro-me do teu queixo a tremer, meu filho, enquanto resistias a deixar correr nem que fosse uma lágrima. Bastava  um sopro nessa altura e elas correriam numa torrente libertadora. O pai também não consegue chorar... nem sei bem porquê. Mesmo assim resististe quase cinco minutos. Não pensei que tivesses endurecido tanto.

Também me lembro da tua alegria, do teu sorriso.

Um dia vamos chorar e rir de tudo isto. Um dia vamos rir.


publicado por BigJoao às 00:11
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Sexta-feira, 8 de Março de 2013

A manifestação

Cheguei ao Marquês de Pombal à hora marcada. As meia dúzia de pessoas presentes desanimariam qualquer um. Ao fim de vinte minutos fui até ao cimo da avenida da Liberdade e o sentimento mudou. A avenida estava completamente cheia até onde a vista alcançava. Calma e sem grandes alaridos, uma quantidade impressionante de pessoas manifestou-se.

 

2 de março de 2013

 

Percebia-se que quem lá esteve, esteve como eu. Sem experiência em manifestações, só com o desejo de fazer uma declaração. A de que quem votou neste governo, não votou nisto (e eu nem sequer votei neles). A de que quem falha previsões em 100%, não merece crédito. Sim! Quem prevê uma recessão de 1% e acaba a verificar que ela é de 1,9%, é como um mecânico que afirma que a reparação fica em 500€ e no final pede 1000€. A um mecânico assim chamamos aldrabão, a um ministro chamamos o quê?

Não se vislumbra no horizonte uma única medida que revele solideriedade dos políticos eleitos com os sacrifícios da população que os elegeu. O grupo parlamentar do PS troca de carros e compra Audi A5 em vez de BMW série 5, como se isso fosse relevante, não se observam quaisquer medidas de emergência como se a sociedade não estivesse em sofrimento. Os empresários da restauração suicidam-se, os desempregados aumentam todos os dias, os sem abrigo vêem-se por todos os lados e cada vez mais.

 

No meio disto tudo, ontem vejo um António Borges defender a privatização da TAP por alegadas "interferências políticas na sua gestão". Não querendo ficar atrás, Passos Coelho fingiu que a manifestação não trouxe 1 milhão de pessoas para a rua, colocou a cabeça na areia e pressistiu (verbo que muito lhe agrada) teimoso, em governar contra os portugueses. Tornando miseráveis os seus concidadãos. Onde espera chegar com esta atitude? Desconheço. Assim como desconheço quem queira votar nele... talvez lhe baste como futuro um lugar de administrador num banco. Para um primeiro ministro mediocre, ambições mediocres.

 

 

Patxi Andion - Me esta doliendo una pena



publicado por BigJoao às 22:37
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