Quinta-feira, 19 de Junho de 2014

e tu?

Recordo-me ocasionalmente da tua ausência, do teu espaço dentro de mim, hoje tão reduzido quando comparado com a galáxia de possibilidades que me oferecias. Recordo-me com um misto de saudade e consciência de que a nossa natureza humana vence sempre, que o espaço que ocupaste hoje parece um deserto frio de areia e rocha onde antes florescia uma paisagem verdejante paradisíaca.

 

 

Magoa-me a minha inconsciência de que tudo aquilo poderia nunca mais ter igual, poderia ser único. Que burro! Como pude achar que aquelas emoções eram minhas quando na realidade só as emprestaste? Vivi tudo como se pudesse durar para sempre... éramos deuses sem o saber.

 

 

 

The XX - Intro

 

Hoje olho para dentro, para o deserto, e não consigo imaginar que torrente de água e verde alguma vez conseguirá devolver sequer vida à desolação evidente. Hoje ignoro alguns avanços porque todos me parecem torpes, hoje sei que todo esse espaço é teu, ainda que já lá não estejas. Hoje todo esse espaço me parece inútil embora não o dispense, pois lembra-me que já o vivi. Ocasionalmente alguém o atravessa e espanta-se tentando imaginar a dimensão de tal amor, como uma criança de braços abertos explica o tamanho do mar e com os seus pequenos braços o pensa abraçar.

 

Salgaste o terreno hoje abandonado, sabendo que nem tu nem ninguém o voltaria a usar. Tu porque não te reconheço, não és a mesma de outrora, deixaste a vontade lá atrás algures naqueles dias e já não contas com a minha ajuda. Mais ninguém porque acabo por não o permitir, sem vontade nem vigor, porque nenhuma construção vale a pena se não ambiciona sequer 1% do que lá vivemos.

Partiste é certo, mas o que deixaste para trás, ainda que vazio, ainda lá está.


publicado por BigJoao às 17:20
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Sábado, 21 de Dezembro de 2013

A minha cidade

Vestiu a camisola de lã cor de sangue escuro. Com o frio que estava, só mesmo a lã o conseguia aquecer. Pegou no blusão, carteira, chaves e saiu de casa batendo a porta. O som dos seus passos no chão húmido ecoou pelas escadas do prédio. A cada passo a sensação de pisar areia no chão, areia que no verão nem se sente, nem se nota.

 

Iyeoka - Simply Falling

 

Já na rua, o frio descobriu forma de lhe encontrar a pele, nas mãos, no pescoço, na cara. Empurrou as mãos para os bolsos das calças de ganga, mas só se sentiu apertado, preso. Voltou a guardar as mãos nos bolsos do blusão. Tomou a direcção habitual para apanhar o metro. Pelo chão vários castanhos nas folhas de plátano. Os sapatos com sola de borracha manhosa, a chuva e as folhas levaram a pequenas escorregadelas sucessivas. Atravessou a rua para o passeio nu, sem o cobertor de folhas nem o perigo de queda.

Da estação solta-se um ruído de comboios que chegam e partem, misturado com o da escada rolante. Pessoas apressadas, sempre apressadas, sempre com receio de perder o metro, sempre com medo de esperar e se verem perante si mesmas.

 

 

Saiu no Martim Moniz, início da Mouraria. O Centro comercial enorme num dos lados da praça. Atravessou-o e viu-se frente a um bloco de mármore rosa meio esculpido, onde se percebe uma guitarra portuguesa. Entrou na rua do capelão e re-encontrou Lisboa e as suas ruelas. Sentiu-se em casa. Esta é a Lisboa que é boa de viver, a Lisboa do fado. Mas não um fado triste e soturno, um fado alegre e bem vivo. Um fado a cada esquina. Deixou-se entranhar pelo espírito e amou profundamente.

 

Lisboa também é isto.


publicado por BigJoao às 03:35
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Sexta-feira, 20 de Setembro de 2013

A libertação

Talvez tenhamos que nos libertar dos bens materiais para atingirmos a felicidade. Nesse caso estou quase lá.

Talvez tenhamos que nos libertar de toda a zanga e simplesmente aceitar os factos da vida.

Talvez me converta ao budismo, ao islamismo, ao "abdicarismo", ao "desistismo", ao "abstinentismo" e a mais qualquer outro "ismo" de que me lembre.

 

Foto de sem abrigo (Reuters)

foto Reuters

 

E o que é a verdade!? Talvez um dia a verdade aconteça, talvez germine e cresça como um rebento de soja. Talvez a minha verdade esteja errada e tortuosa. Talvez se me libertar de ideias pré-concebidas que desconheço, ela se erga numa coluna de fumo e luz.

 

Olho para uma vida cheia de becos sem saída e apostas falhadas. Diz-se que "o que não nos mata torna-nos mais fortes", e se nos matar? Se nos formos tornando sombras de nós mesmos a pouco e pouco. Os dedos sem sentir a pouco e pouco. As pancadas já sem doer, a pouco e pouco. Sem capacidade de reacção. Um esgar no rosto sem sequer parecer um sorriso, uma careta.

As palavras foram lapidares, a conclusão foi tirada. As chaves do carro ficaram sobre a secretária vazia, a mochila no chão ao lado desta. Sem sentir a cadeira a arrastar, levantou-se e saiu indiferente aos protestos que as coisas não estavam terminadas. Precisava de ar.

Os olhos pequenos, já crescidos de olhar. Os ouvidos cheios de sons, uns bons outros maus. Uns breves outros longos e agudos como estiletes. A narrativa da mentira, a narrativa da boçalidade destrutiva como um buldozer. Cabeças de criança terraplanadas de ideias violentas, de destruição brutal.

 

Ninguém nos prepara para isto quando temos um filho. Ninguém nos prepara para isto quando temos dois. Ninguém.

Tornamo-nos sombras, espectros. Sem rumo, sem norte, sem conteúdo.

Seja feita a vossa vontade.

 

 

 

Tiago Bettencourt - O Jogo


publicado por BigJoao às 02:11
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Segunda-feira, 8 de Julho de 2013

Com os olhos a arder

Nas ruas os pássaros estão em silêncio, o calor é demasiado.

Os chopos algodoeiros libertam a sua semente sob a forma de pequenos flocos de algodão. Esvoaçam lentamente ao sabor da brisa, quando há brisa.

Custa respirar, o ar é quente e seco. A luz intensa do sol faz arder os olhos.

 

Sinto... olho... observo... concluo... resolvo... envolvo...

 

Já não consigo... um carro passa na rua. A cidade está viva, activa, inteira.

 

 

U2 - Bad


publicado por BigJoao às 02:18
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Segunda-feira, 1 de Julho de 2013

A pele

Não sou de entrar no mar de rompante. Preciso de entrar devagar, permitir que o corpo se habitue à temperatura da água.

Chego à beira do mar e paro com a rebentação a chegar, no máximo, abaixo do joelho.

A hora que passei ao sol faz sentir os seus efeitos. Cada centímetro de pele seca atingido pela água provoca um calafrio.

 

 

Quando uma onda me molha o baixo ventre sinto tudo a congelar. Até o cérebro! Por momentos fico imóvel com um esgar de sofrimento na cara, como se me estivessem a arrancar o figado pela boca. Talvez seja esta a demonstração que os homens só pensam com a cabeça de baixo.

Ainda falta a barriga. Só de pensar nisso estremeço! Molho as mãos nesta onda e ponho-as na barriga. Assim já se vai habituando... calculei mal a distância e parece que esta onda vai-me molhar a barriga.... ahhhhhhhhhh safa!!! Caramba! Isto hoje está frio!

 

Com a barriga já molhada, deixou de haver motivo para não mergulhar. Vamos acabar com isto!

Mergulho de cabeça na onda que me parece maior. Sinto que a cabeça até parece encolher enquanto dou duas braçadas debaixo de água. Volto à superfície e sopro com força. De alguma forma o sopro parece alíviar o frio. Tenho que me mexer. Dou dez braçadas vigorosas num estilo parecido com o Crawl. Volto para trás em bruços e paro.

Está boa! Espectacular!!!!

Daí a 20 minutos saio da água revigorado, tonificado.

"Está espectacular", digo...

 

Quem vir de fora, até parece que não me custou a entrar. :)

 

 

 

Ornatos Violeta - Coisas


publicado por BigJoao às 21:04
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Segunda-feira, 6 de Maio de 2013

Estado gasoso

Dave Matthews Band - If Only

 

 

Hoje levantei-me e passei o dia a fazer coisas. Coisas. Nem me lembro bem o que fiz, mas sei que fiz algumas das coisas que tinha que fazer.

Parece que ando a meio metro do chão. Costumo associar este estado à paixão, mas isso não existe neste momento, talvez seja a nostalgia da paixão.

 

Foto de Walker Evans

 

Há quem defenda que é mau estar apaixonado, mas não me sinto vivo sem paixão, sem amor. Por isso fiz coisas... é o que vou fazendo sem essa emoção que me devora, que me controla.

 

Mudei de casa. Enquanto tiro os livros dos caixotes e os arrumo, encontrei "Os versos do capitão" do Neruda e vieste-me à memória. Tu e a determinação incontrolável que sentia de te ter, de te fazer e ser feliz. Parece inacreditável como continuas viva dentro de mim, como se tivessemos estado juntos ontem. Como se ainda te sentisse o cheiro, o teu corpo contra o meu. Como se ainda sentisse a pele na pele. Se quiser, consigo lembrar-me dos detalhes do teu corpo, dos teus gestos.

 

A vida continua. Fiz uma massada de goulash com caril. Não sei se faça sopa, mas não me apetece sopa; faço amanhã.

Tanta coisa para fazer e tu a pensar em disparates... se não dá, não dá, porque é que insistes!?


publicado por BigJoao às 23:11
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Quinta-feira, 4 de Abril de 2013

Parece mentira

O dia rasgou a noite, como o sol rompeu a chuva. De tempos a tempos procuro o arco-íris sem o descobrir.

 

Mariza - Chuva

 

A vida continua a surpreender-nos aqui e ali, mas as emoções fortes são o que nos faz sentir vivos.

Por vezes somos fortes, outras frágeis, outras somos só espectadores.

Não consigo ser inteiro, nem alto, nem distinguir o principal. Busco o principal mas o secundário distrai-me. Espero dos outros as soluções que não construo. Destruo o que não me destroi, na ânsia do que me desfoca.

 

 

E esta chuva que me inunda a alma em jorros de insanidade. Sinto-me a enlouquecer. Deixei de acreditar em mim, no que faço. Deixei de acreditar na consequência do que faço. Deixei... escapar-te entre os dedos... porque não tinha força para suster-te nas mãos. Como se a areia pesasse toneladas e os dedos cedessem.

Não consigo pensar nem ser razoável, como sempre fui. Tudo me magoa, me atinge... apetece-me chorar toda esta chuva, inundar campos de lágrimas. Para que floresçam malmequeres e papoilas fortes e viçosas de emoções choradas, mortas.

Tudo se mistura numa amalgama indistinta de amores, família, trabalho. Tudo.

 

Lembro-me do teu queixo a tremer, meu filho, enquanto resistias a deixar correr nem que fosse uma lágrima. Bastava  um sopro nessa altura e elas correriam numa torrente libertadora. O pai também não consegue chorar... nem sei bem porquê. Mesmo assim resististe quase cinco minutos. Não pensei que tivesses endurecido tanto.

Também me lembro da tua alegria, do teu sorriso.

Um dia vamos chorar e rir de tudo isto. Um dia vamos rir.


publicado por BigJoao às 00:11
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Terça-feira, 1 de Janeiro de 2013

Aquela pequena dor

Adotei o novo acordo ortográfico. Espero conseguir adaptar-me ao que me proponho, em nome da standardização pretendida.

 

Acordei sem me levantar. A falta de vontade é gigantesca, pareço uma grua gripada.

A cabeça sempre a pensar... será que não se consegue parar de pensar? Esvaziar a cabeça?

Sinto-me desfocado. Uma fotografia tirada à noite, quase sem luz, cheia de grão, desfocada e tremida.

 

(foto de Aníbal Novo)

 

Percorro as ruas de Lisboa, sem as ver. Os caminhos quase de cór, sem os sentir.

As ruas sem a agitação de outros Natais, agonizam exangues, pobres, lentas.

 

Também não sinto o Porto, nem as suas calçadas cinzentas de cimento entregues às gaivotas, companheiras de sempre. Para elas não há crise, nem governos, não há troikas, nem empréstimos.

 

Não me sinto por milhões de pequeninos motivos. Por milhões de pequeninas dores.

 

Rui Veloso - Pequena Dor

 

A reação tarda em chegar. De repente faz-se o clique, mas até lá é preciso esperar. Não vejo como nem porquê, mas esperar parece ser a melhor opção.

Onde está o projeto que me vai fazer levantar cheio de vontade de fazer coisas? Estou à espera desse clique.

A vertígem de estar tudo em aberto pode ser aterradora. O mundo está aí ao meu dispôr. É só apontar numa direção.


publicado por BigJoao às 12:52
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Quinta-feira, 6 de Dezembro de 2012

O sucesso

As relações, os afectos, os filhos, a família, os amigos, os colegas, os cursos, as certificações, o trabalho, os bens ... qual é a medida do sucesso? Qual é a medida do falhanço?

 

É difícil sentir-me bem em mim. Por vezes preciso do silêncio, preciso de estar comigo. Saí de casa com a chuva a cair. Protejo o livro dentro do casaco, não gosto de ver livros com páginas molhadas de chuva. Não vou ler, quero simplesmente a sua companhia. Aquele cantinho acolhedor resguardado dentro do casaco.

 

 

Respiro. Inspiro aquele ar frio... expiro-o já processado. Nada de especial, sempre o fiz. Sempre não! Houve aquele dia em que te estava a chatear de propósito irmã. Era grande mas imaturo, como todos os rapazes de 15 anos a chatear as irmãs são. Já não me conseguias bater sem que o deixasse. Deste-me um murro nas costas e de repente parei de respirar. Incrédulo quis inspirar e não consegui, uma, duas, três tentativas e nada... já deitado no chão lá comecei a conseguir. Não foram mais de 20 segundos mas foi assustador.

Hoje olho para trás e sei que fiz o que tinha que fazer. Melhor ou pior, fiz. Não me devia sentir derrotado, sem vontade. Nem eu nem os outros 16,9% de desempregados.

 

Hands on Approach - Days of Our Own


publicado por BigJoao às 00:18
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Luanda

Com o visto no passaporte entrou no avião. Sete horas bastavam para por o pé naquela terra vermelha de Luanda... de África. Uma semana em Luanda não deu para ver nada, só para aguçar ainda mais o apetite.

 

À saída do avião 29 graus de temperatura e um ar cheio de aromas distintos, únicos. Sempre aquela estranha sensação de que continuamos em casa. Sempre a ideia que as atitudes são semelhantes, a cultura é igual.

 

A ilha, a marginal, o Banco Nacional de Angola, lindos! Tudo arranjado, é lindo.

 

Amei lá estar. Podem dizer tudo, que está tudo estragado, eu sei lá... mas é fantástico. :)

 


publicado por BigJoao às 00:08
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