Domingo, 29 de Abril de 2012

Já não fumo

Levanto-me da cadeira e vou à janela. Lá fora chove e a iluminação de rua empresta um tom surreal à imagem, enriquecida pelo som monótono de milhares de pingos a caírem no chão, nos carros, nas árvores, na roupa. Sinto frio, mas fico mais um pouco. Ninguém na rua.

 

Chuva

 

Se fumasse acenderia agora o cigarro e deixaria de sentir a dor, deixaria que o fumo ocupasse o vazio. Podía encher a cabeça de música de batida previsível, sem riqueza instrumental nem rasgos de génio ou não. Talvez numa qualquer danceteria, com um qualquer grupo de amigos mais ou menos perfeitos desconhecidos, mas isso nunca me preencheu. Podia bater com a cabeça na parede, amolgar a tinta, amolgar-me por dentro. Retirar a forma, atribuíndo-lhe novos tons, novas claves de sol ou de dó, dó de mim próprio. Que patético... auto-comiseração... será que agora deu-me para isso? Como cheguei aqui?

 

Volto para a cozinha, pego no grão demolhado e deito na panela de pressão, junto água e ponho ao lume. Olho o relógio e calculo a hora a que estará pronto. Tarefas rotineiras que me trazem de volta. A vida chama, puxa por mim, por todos. O mundo não espera que eu resolva nenhum problema. Porque haveria de esperar?

Assumo as minhas responsabilidades, todos temos que o fazer.

 


publicado por BigJoao às 00:04
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Quarta-feira, 20 de Abril de 2011

O anzol

A tarde preguiça e espreguiça-se enquanto se arrasta indulente num desfolhar de horas que jazem inertes, já gastas pelo chão. Finalmente encosta-se à noite suave e calorosamente, misturando-se até se tornarem numa só.

 

 

Tenho saudades de quando fumava. Havia sempre companhia dentro de cada cigarro. Havia sempre alguém com quem partilhar aquela fraqueza que entra pela boca e queima o seu caminho, até finalmente espalhar o seu calor nos pulmões. Uma leve tontura após cada passa, os olhos a arder por cada vez que o fumo lá chega. A roupa e o interior do carro sempre cheios de cinza, a cheirar a tabaco ou, o que é pior, a cheirar a tabaco frio. Lembro tudo isto sem pena de ter deixado nem recriminação de quem ainda fuma.

 

 

 

 

Sinto que as coisas comigo acontecem sempre fora de tempo. Devo ser eu, deve ter a ver comigo, com a minha forma de estar.

Já me acusaram de ser racional, mas o que sinto é exactamente o contrário. Sinto que ando sempre a sofrer as consequências de ser impulsivo, mas a verdade é que as sofro sem arrependimento.

Sinto tanta falta de algumas pessoas cá dentro... de quem não esqueci, de quem não quero esquecer, de quem quero lembrar. O tempo faz o seu trajeto implacável e esboroa rochas outrora sólidas, esbate cores outrora garridas. Só não descolora o que sentimos, isso fica cá dentro no quentinho, no aconchego do que nos é querido.

 

Sou como as crianças, necessito de confirmações...


publicado por BigJoao às 16:01
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