Quinta-feira, 19 de Junho de 2014

e tu?

Recordo-me ocasionalmente da tua ausência, do teu espaço dentro de mim, hoje tão reduzido quando comparado com a galáxia de possibilidades que me oferecias. Recordo-me com um misto de saudade e consciência de que a nossa natureza humana vence sempre, que o espaço que ocupaste hoje parece um deserto frio de areia e rocha onde antes florescia uma paisagem verdejante paradisíaca.

 

 

Magoa-me a minha inconsciência de que tudo aquilo poderia nunca mais ter igual, poderia ser único. Que burro! Como pude achar que aquelas emoções eram minhas quando na realidade só as emprestaste? Vivi tudo como se pudesse durar para sempre... éramos deuses sem o saber.

 

 

 

The XX - Intro

 

Hoje olho para dentro, para o deserto, e não consigo imaginar que torrente de água e verde alguma vez conseguirá devolver sequer vida à desolação evidente. Hoje ignoro alguns avanços porque todos me parecem torpes, hoje sei que todo esse espaço é teu, ainda que já lá não estejas. Hoje todo esse espaço me parece inútil embora não o dispense, pois lembra-me que já o vivi. Ocasionalmente alguém o atravessa e espanta-se tentando imaginar a dimensão de tal amor, como uma criança de braços abertos explica o tamanho do mar e com os seus pequenos braços o pensa abraçar.

 

Salgaste o terreno hoje abandonado, sabendo que nem tu nem ninguém o voltaria a usar. Tu porque não te reconheço, não és a mesma de outrora, deixaste a vontade lá atrás algures naqueles dias e já não contas com a minha ajuda. Mais ninguém porque acabo por não o permitir, sem vontade nem vigor, porque nenhuma construção vale a pena se não ambiciona sequer 1% do que lá vivemos.

Partiste é certo, mas o que deixaste para trás, ainda que vazio, ainda lá está.


publicado por BigJoao às 17:20
link do post | Comentar retratos | favorito
Sexta-feira, 20 de Setembro de 2013

A libertação

Talvez tenhamos que nos libertar dos bens materiais para atingirmos a felicidade. Nesse caso estou quase lá.

Talvez tenhamos que nos libertar de toda a zanga e simplesmente aceitar os factos da vida.

Talvez me converta ao budismo, ao islamismo, ao "abdicarismo", ao "desistismo", ao "abstinentismo" e a mais qualquer outro "ismo" de que me lembre.

 

Foto de sem abrigo (Reuters)

foto Reuters

 

E o que é a verdade!? Talvez um dia a verdade aconteça, talvez germine e cresça como um rebento de soja. Talvez a minha verdade esteja errada e tortuosa. Talvez se me libertar de ideias pré-concebidas que desconheço, ela se erga numa coluna de fumo e luz.

 

Olho para uma vida cheia de becos sem saída e apostas falhadas. Diz-se que "o que não nos mata torna-nos mais fortes", e se nos matar? Se nos formos tornando sombras de nós mesmos a pouco e pouco. Os dedos sem sentir a pouco e pouco. As pancadas já sem doer, a pouco e pouco. Sem capacidade de reacção. Um esgar no rosto sem sequer parecer um sorriso, uma careta.

As palavras foram lapidares, a conclusão foi tirada. As chaves do carro ficaram sobre a secretária vazia, a mochila no chão ao lado desta. Sem sentir a cadeira a arrastar, levantou-se e saiu indiferente aos protestos que as coisas não estavam terminadas. Precisava de ar.

Os olhos pequenos, já crescidos de olhar. Os ouvidos cheios de sons, uns bons outros maus. Uns breves outros longos e agudos como estiletes. A narrativa da mentira, a narrativa da boçalidade destrutiva como um buldozer. Cabeças de criança terraplanadas de ideias violentas, de destruição brutal.

 

Ninguém nos prepara para isto quando temos um filho. Ninguém nos prepara para isto quando temos dois. Ninguém.

Tornamo-nos sombras, espectros. Sem rumo, sem norte, sem conteúdo.

Seja feita a vossa vontade.

 

 

 

Tiago Bettencourt - O Jogo


publicado por BigJoao às 02:11
link do post | Comentar retratos | favorito
Segunda-feira, 1 de Julho de 2013

A pele

Não sou de entrar no mar de rompante. Preciso de entrar devagar, permitir que o corpo se habitue à temperatura da água.

Chego à beira do mar e paro com a rebentação a chegar, no máximo, abaixo do joelho.

A hora que passei ao sol faz sentir os seus efeitos. Cada centímetro de pele seca atingido pela água provoca um calafrio.

 

 

Quando uma onda me molha o baixo ventre sinto tudo a congelar. Até o cérebro! Por momentos fico imóvel com um esgar de sofrimento na cara, como se me estivessem a arrancar o figado pela boca. Talvez seja esta a demonstração que os homens só pensam com a cabeça de baixo.

Ainda falta a barriga. Só de pensar nisso estremeço! Molho as mãos nesta onda e ponho-as na barriga. Assim já se vai habituando... calculei mal a distância e parece que esta onda vai-me molhar a barriga.... ahhhhhhhhhh safa!!! Caramba! Isto hoje está frio!

 

Com a barriga já molhada, deixou de haver motivo para não mergulhar. Vamos acabar com isto!

Mergulho de cabeça na onda que me parece maior. Sinto que a cabeça até parece encolher enquanto dou duas braçadas debaixo de água. Volto à superfície e sopro com força. De alguma forma o sopro parece alíviar o frio. Tenho que me mexer. Dou dez braçadas vigorosas num estilo parecido com o Crawl. Volto para trás em bruços e paro.

Está boa! Espectacular!!!!

Daí a 20 minutos saio da água revigorado, tonificado.

"Está espectacular", digo...

 

Quem vir de fora, até parece que não me custou a entrar. :)

 

 

 

Ornatos Violeta - Coisas


publicado por BigJoao às 21:04
link do post | Comentar retratos | favorito
Segunda-feira, 6 de Maio de 2013

Estado gasoso

Dave Matthews Band - If Only

 

 

Hoje levantei-me e passei o dia a fazer coisas. Coisas. Nem me lembro bem o que fiz, mas sei que fiz algumas das coisas que tinha que fazer.

Parece que ando a meio metro do chão. Costumo associar este estado à paixão, mas isso não existe neste momento, talvez seja a nostalgia da paixão.

 

Foto de Walker Evans

 

Há quem defenda que é mau estar apaixonado, mas não me sinto vivo sem paixão, sem amor. Por isso fiz coisas... é o que vou fazendo sem essa emoção que me devora, que me controla.

 

Mudei de casa. Enquanto tiro os livros dos caixotes e os arrumo, encontrei "Os versos do capitão" do Neruda e vieste-me à memória. Tu e a determinação incontrolável que sentia de te ter, de te fazer e ser feliz. Parece inacreditável como continuas viva dentro de mim, como se tivessemos estado juntos ontem. Como se ainda te sentisse o cheiro, o teu corpo contra o meu. Como se ainda sentisse a pele na pele. Se quiser, consigo lembrar-me dos detalhes do teu corpo, dos teus gestos.

 

A vida continua. Fiz uma massada de goulash com caril. Não sei se faça sopa, mas não me apetece sopa; faço amanhã.

Tanta coisa para fazer e tu a pensar em disparates... se não dá, não dá, porque é que insistes!?


publicado por BigJoao às 23:11
link do post | Comentar retratos | comentários aos retratos (1) | favorito
Quinta-feira, 4 de Abril de 2013

Parece mentira

O dia rasgou a noite, como o sol rompeu a chuva. De tempos a tempos procuro o arco-íris sem o descobrir.

 

Mariza - Chuva

 

A vida continua a surpreender-nos aqui e ali, mas as emoções fortes são o que nos faz sentir vivos.

Por vezes somos fortes, outras frágeis, outras somos só espectadores.

Não consigo ser inteiro, nem alto, nem distinguir o principal. Busco o principal mas o secundário distrai-me. Espero dos outros as soluções que não construo. Destruo o que não me destroi, na ânsia do que me desfoca.

 

 

E esta chuva que me inunda a alma em jorros de insanidade. Sinto-me a enlouquecer. Deixei de acreditar em mim, no que faço. Deixei de acreditar na consequência do que faço. Deixei... escapar-te entre os dedos... porque não tinha força para suster-te nas mãos. Como se a areia pesasse toneladas e os dedos cedessem.

Não consigo pensar nem ser razoável, como sempre fui. Tudo me magoa, me atinge... apetece-me chorar toda esta chuva, inundar campos de lágrimas. Para que floresçam malmequeres e papoilas fortes e viçosas de emoções choradas, mortas.

Tudo se mistura numa amalgama indistinta de amores, família, trabalho. Tudo.

 

Lembro-me do teu queixo a tremer, meu filho, enquanto resistias a deixar correr nem que fosse uma lágrima. Bastava  um sopro nessa altura e elas correriam numa torrente libertadora. O pai também não consegue chorar... nem sei bem porquê. Mesmo assim resististe quase cinco minutos. Não pensei que tivesses endurecido tanto.

Também me lembro da tua alegria, do teu sorriso.

Um dia vamos chorar e rir de tudo isto. Um dia vamos rir.


publicado por BigJoao às 00:11
link do post | Comentar retratos | comentários aos retratos (2) | favorito
Terça-feira, 1 de Janeiro de 2013

Aquela pequena dor

Adotei o novo acordo ortográfico. Espero conseguir adaptar-me ao que me proponho, em nome da standardização pretendida.

 

Acordei sem me levantar. A falta de vontade é gigantesca, pareço uma grua gripada.

A cabeça sempre a pensar... será que não se consegue parar de pensar? Esvaziar a cabeça?

Sinto-me desfocado. Uma fotografia tirada à noite, quase sem luz, cheia de grão, desfocada e tremida.

 

(foto de Aníbal Novo)

 

Percorro as ruas de Lisboa, sem as ver. Os caminhos quase de cór, sem os sentir.

As ruas sem a agitação de outros Natais, agonizam exangues, pobres, lentas.

 

Também não sinto o Porto, nem as suas calçadas cinzentas de cimento entregues às gaivotas, companheiras de sempre. Para elas não há crise, nem governos, não há troikas, nem empréstimos.

 

Não me sinto por milhões de pequeninos motivos. Por milhões de pequeninas dores.

 

Rui Veloso - Pequena Dor

 

A reação tarda em chegar. De repente faz-se o clique, mas até lá é preciso esperar. Não vejo como nem porquê, mas esperar parece ser a melhor opção.

Onde está o projeto que me vai fazer levantar cheio de vontade de fazer coisas? Estou à espera desse clique.

A vertígem de estar tudo em aberto pode ser aterradora. O mundo está aí ao meu dispôr. É só apontar numa direção.


publicado por BigJoao às 12:52
link do post | Comentar retratos | favorito
Sábado, 17 de Novembro de 2012

Sinal

Hoje lembrei-me de uma das melhores canções de sempre da música portuguesa.

 

 

 

De Luís Pedro Fonseca, que a sentiu, escreveu e lhe deu corpo, para a Lena d'Água, que lhe deu voz e inspiração. O José Cid já a interpretou e até uma miúda que mal sabe falar português (é uma versão linda).

 

Sempre que o Amor me quiser

Basta fazer-me um sinal

Soprado na brisa do mar

Ou num raio de sol

Sempre que o Amor me quiser

Sei que não vou dizer não

Resta-me ir para onde ele for

E esquecer-me de mim

E esquecer-me de mim

 

Como uma chama que se esquece

Numa fogueira que arde de paixão

 

Sempre que o Amor me quiser

Sei que a razão vai perder

Que me hei-de entregar outra vez

Como a primeira vez

Sempre que o Amor me quiser

Vou-me banhar nessa luz

Sentir a corrente passar

E esquecer-me de mim

E esquecer-me de mim

 

Como uma chama que se esquece

Numa fogueira que arde de paixão

 

Sempre que o Amor me quiser


publicado por BigJoao às 15:56
link do post | Comentar retratos | favorito
Quinta-feira, 20 de Setembro de 2012

Linhas

A caneta desenha letras no papel, criando um estranho quadro, uma estranha imagem de linhas separadas a espaços... por espaços. O papel, outrora de uma candura tipificada, normalizada e monótona vai-se deixando manchar sem retorno. Também a vida não tem volta.

 

 

As palavras foram ditas sem retorno. Palavras de fuga, palavras de enganar, palavras de indecisão. Qualquer palavra era boa para evitar a perda. Qualquer ardil era bom para atingir aquele fim.

 

As pessoas revelam-se em três tempos, basta enfrentarem uma crise, uma situação extrema e lá estão elas a espreitar, os seus princípios, a sua estrutura, os seus valores.

 

Fingiu um desequilíbrio instantâneo e avançou vacilante pelo corredor. O tecto baixo misturado com as lâmpadas flurescentes projectam sombras em todas as direcções. Ruídos estranhos e ligeiros, numa quietude de vigília. Uma calma tensa.

As paredes brancas cheias de placards informativos, "Saída", "Recepção". Pessoas paradas pelos cantos.

 

A decisão surgiu, sempre demorada. Sempre a mesma espera... as regras... os procedimentos... as vontades... a dor.

O homem sempre quis brincar aos deuses, deformar sonhos, encontrar a insustentável leveza do ser. Soa sempre a piada de mau gosto.

 

Bob Dylan - Jokerman


publicado por BigJoao às 02:05
link do post | Comentar retratos | favorito
Quinta-feira, 23 de Agosto de 2012

Crescemos

Crescemos sempre, melhor ou pior vamos crescendo. Vamos apanhando pancada na vida, mas crescemos sempre.

Uns crescem mancos, outros corcundas, outros ainda cegos. Não me refiro a deficiências físicas, refiro-me a condicionamentos ou incapacidades que vamos adquirindo ao longo dos anos.

 

 

Se nos cortam a liberdade de expressão ou não nos respeitam as opiniões, com o tempo e a repetição destas situações, acabamos por nos convencermos que a nossa opinião não tem valor. Seremos incapacitados nesta área, analfabetos de opinião.

Se nos impedem de demonstrar emoções, acabamos por tapá-las dentro de nós. Faremos de tudo para nunca admitir que sentimos, pois os sentimentos podem ser perigosos se forem diabolizados desde cedo... pelo menos é assim que os vamos ver.

Se nos cortam a agressividade rente, seremos incapazes de nos defendermos perante um acto agressivo.

Se nos convencem que somos os melhores sprinters do mundo e acabamos por nunca ser ou sequer andar lá perto, então o mundo é que está mal, não será seguramente a mamã...

 

 

António Zambujo - Fortuna


publicado por BigJoao às 02:49
link do post | Comentar retratos | favorito
Domingo, 17 de Junho de 2012

Reacção

"Porque quem ama, tem medo de perder"

 

Quem ama, também tem medo de sofrer. Quem ama, tem medo de amar demais. Quem ama, tem medo de se enganar. Quem ama, tem medo...

 

Levantou os olhos do livro, olhou para a esquerda e não viu vivalma, à direita só um pescador esquecido lá ao fundo, uns barcos mal semeados no Tejo e mais nada. Quis pegar na mota e seguir até Roma, Florença, Berlim, Helsínquia. Quis pegar no barco e velejar até às Caraíbas, descer à Patagónia e voltar pela Oceânia, Moçambique. Pegar no balão e subir pela Tanzânia, Zanzibar, Egipto e voltar. Chegar e perceber que tudo estava igual e no entanto, tudo tinha mudado completamente.

 

Tenho saudades dos meus filhos, da sua alegria transbordante quando estão juntos. Nem sequer se apercebem que não consigo conter um sorriso quando sem envolvem em debates sobre isto, sobre aquilo, sobre conceitos que são só deles, entusiasmados uns com os outros. Esquecem-se que ali estou, a levá-los para algum lado em silêncio, enquanto me alimento daquela alegria, enquanto se alimentam mutuamente de satisfação.

 

 

The Gift - Fácil de entender

 

Hoje joga a selecção e estou numa inquietação sem justificação, que nada tem a ver com a selecção. É uma inquietação interior, que não me deixa em paz.

Hoje ouvi que somos um povo megalómano. O Júlio Machado Vaz partilhou esta visão com o auditório da Antena 1 e eu estou-me a sentir arrastado para concordar. Nunca tinha visto as coisas assim. Porque tenho sempre que querer tudo? Quero toda a felicidade, todo o amor, toda a paixão, toda a aventura, toda a glória... tudo!!!

 

Sou um megalómano da felicidade.


publicado por BigJoao às 15:57
link do post | Comentar retratos | favorito

.mais sobre o Big

.pesquisar

 

.Novembro 2016

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
17
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29


.posts recentes

. e tu?

. A libertação

. A pele

. Estado gasoso

. Parece mentira

. Aquela pequena dor

. Sinal

. Linhas

. Crescemos

. Reacção

.Posts do tempo da Maria Cachuxa

.tags

. todas as tags

.Links

.Contador

blogs SAPO

.subscrever feeds