Quarta-feira, 21 de Setembro de 2016

Dias sempre iguais

Levanto-me ensonado com o despertador do telefone a arranhar-me o cérebro. Desligo-o um dia mais num gesto impensado. O cérebro empastelado abre uma gaveta e conjuga peças de vestuário, nem sei como funciona bem no fim, mas funciona.

 

 

The Beatles - Help

 

Barba, duche, roupa, pequeno almoço, café, metro, livro... almoço, fruta ... café, empada, metro, livro, padaria, mercearia, casa.

 

Finalmente começa o dia! O que há hoje por aí!?!?!?

Amigos, bares, música, exposições, conversas, jantar... as respostas nos outros. Mesmo que o não saibam, são eles que as têm.

Uma boa conversa compensa a inutilidade do dia de trabalho.

IMG_1316.JPG

 

É só trabalho...


publicado por BigJoao às 15:54
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Segunda-feira, 5 de Agosto de 2013

Citação e queda

Cito

 

A vida vai torta, Jamais se endireita, O azar persegue, Enconde-se à espreita

 

Sinto a luz nos olhos e desvio a cara. Tento ver através do reflexo da montra. A lista de empregos disponíveis parece uma coisa genérica, abrangente, metálica. Quase como se não tivessem pedido nenhum de nenhum empresário, mas se entrar algum, têm um dossier de respostas pronto a mostrar.

 

Nunca dei um passo, Que fosse o correcto, Eu nunca fiz nada, Que batesse certo

 

Meto a chave à porta, rodo-a e abro a porta. Está tudo igual, nos mesmos espaços, na mesma lentidão de gestos estáticos. Fecho a porta deixando os ruídos da rua mais distantes. Cada gesto produz os sons esperados, nenhuma surpresa.

 

Enquanto esperavas no fundo da rua, Pensava em ti e em que sorte era a tua, Quero-te tanto...(quero-te tanto), Quero-te tanto...(quero-te tanto)

 

Ligo o PC e tento lembrar-me da lista de tarefas que tinha feito mentalmente quando voltava para casa. Pego no envelope da conta da água e tento escrever os items da lista. A vida corre devagar.

 

De modo que a vida, É um circo de feras, E uns entre tantos, São as minhas feras

 

O estomago chama-me. Levanto-me do PC e vou até à cozinha. Abro o frigorífico e espreito para dentro... não me apetece nada. Vou até à despensa, acendo a luz, espreito e ... massa, arroz, salsichas, atum, bolachas... ora bolas, devia ter comprado fruta. Daqui a pouco já faço o jantar.

 

Ornatos Violeta - Devagar


publicado por BigJoao às 02:39
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Segunda-feira, 1 de Julho de 2013

A pele

Não sou de entrar no mar de rompante. Preciso de entrar devagar, permitir que o corpo se habitue à temperatura da água.

Chego à beira do mar e paro com a rebentação a chegar, no máximo, abaixo do joelho.

A hora que passei ao sol faz sentir os seus efeitos. Cada centímetro de pele seca atingido pela água provoca um calafrio.

 

 

Quando uma onda me molha o baixo ventre sinto tudo a congelar. Até o cérebro! Por momentos fico imóvel com um esgar de sofrimento na cara, como se me estivessem a arrancar o figado pela boca. Talvez seja esta a demonstração que os homens só pensam com a cabeça de baixo.

Ainda falta a barriga. Só de pensar nisso estremeço! Molho as mãos nesta onda e ponho-as na barriga. Assim já se vai habituando... calculei mal a distância e parece que esta onda vai-me molhar a barriga.... ahhhhhhhhhh safa!!! Caramba! Isto hoje está frio!

 

Com a barriga já molhada, deixou de haver motivo para não mergulhar. Vamos acabar com isto!

Mergulho de cabeça na onda que me parece maior. Sinto que a cabeça até parece encolher enquanto dou duas braçadas debaixo de água. Volto à superfície e sopro com força. De alguma forma o sopro parece alíviar o frio. Tenho que me mexer. Dou dez braçadas vigorosas num estilo parecido com o Crawl. Volto para trás em bruços e paro.

Está boa! Espectacular!!!!

Daí a 20 minutos saio da água revigorado, tonificado.

"Está espectacular", digo...

 

Quem vir de fora, até parece que não me custou a entrar. :)

 

 

 

Ornatos Violeta - Coisas


publicado por BigJoao às 21:04
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Domingo, 29 de Abril de 2012

Já não fumo

Levanto-me da cadeira e vou à janela. Lá fora chove e a iluminação de rua empresta um tom surreal à imagem, enriquecida pelo som monótono de milhares de pingos a caírem no chão, nos carros, nas árvores, na roupa. Sinto frio, mas fico mais um pouco. Ninguém na rua.

 

Chuva

 

Se fumasse acenderia agora o cigarro e deixaria de sentir a dor, deixaria que o fumo ocupasse o vazio. Podía encher a cabeça de música de batida previsível, sem riqueza instrumental nem rasgos de génio ou não. Talvez numa qualquer danceteria, com um qualquer grupo de amigos mais ou menos perfeitos desconhecidos, mas isso nunca me preencheu. Podia bater com a cabeça na parede, amolgar a tinta, amolgar-me por dentro. Retirar a forma, atribuíndo-lhe novos tons, novas claves de sol ou de dó, dó de mim próprio. Que patético... auto-comiseração... será que agora deu-me para isso? Como cheguei aqui?

 

Volto para a cozinha, pego no grão demolhado e deito na panela de pressão, junto água e ponho ao lume. Olho o relógio e calculo a hora a que estará pronto. Tarefas rotineiras que me trazem de volta. A vida chama, puxa por mim, por todos. O mundo não espera que eu resolva nenhum problema. Porque haveria de esperar?

Assumo as minhas responsabilidades, todos temos que o fazer.

 


publicado por BigJoao às 00:04
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Terça-feira, 17 de Abril de 2012

... e o amor?

Olhou à volta e viu a outra margem. Não sentia nenhum apelo, nenhum chamamento, nada. Só o vazio o acompanhou, enquanto de blusão vestido e mãos enterradas nos bolsos caminhou ao longo do rio. O frio continuou a entrar por todas as frestas possíveis e sempre a conseguir encontrar uma superfície de pele. Pele que passava a ser de galinha.

 

 

 

O coração é uma estranha dimensão do ser. Agora batia compassado, ritmado pelos seus passos, um autêntico metrónomo. E no entanto até podia estar parado. Batia onde, se estava tão cheio de vazio? Experimentou correr só para o sentir melhor, para que batesse com força no peito e voltasse a estar vivo. Parou. Embora continuasse a bater não resultava de nenhuma emoção, só batia. Não chega. Para quê bater sem emoção!? Sem emoções somos vegetais, plantas que se mexem, crescendo envelhecendo sem objectivo. Envelhecer não basta.

 

Somos todos diferentes uns dos outros. Uns conservadores outros liberais, uns altos outros magros, uns maduros outros entropecidos, uns alegres outros pobres. Resultamos de combinações improváveis e nem sequer temos a certeza do que procuramos. O que procuramos para nós, para os outros, para os nossos. Essa diferença é bela e aterradora. Aterradora porque separa, bela porque junta.

Se fossemos iguais seríamos incapazes de amar. Não conseguiríamos distinguir o amor por um filho, do amor ao próximo. Não existiria amor, seríamos ... alfaces.

 

Caminhou até chegar ao fim do trilho. Olhou o horizonte cinzento e pensou na fotografia estranha que daria. Um mar cinzento, interligado a um céu enublado, carregado de chuva. A preto e branco, em tons de cinzento.

Voltou para trás pelo mesmo trilho e o céu desabou sobre ele, mas não lhe pesou.

É leve o céu.


publicado por BigJoao às 22:56
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Quarta-feira, 23 de Março de 2011

Crescemos

Sentou-se no passeio. As pedras da calçada polidas do movimento semanal serviam perfeitamente para o que queria. Não se importou se sujava os calções ou se podia romper os ténis, nem o que pensariam os adultos que passavam por ele na rua.

Tirou do bolso os cromos e fez a contabilidade dos que tinha repetidos e dos que tinha trocado. Separou os "novos". Iam direitinhos para a caderneta quando chegasse a casa. Guardou-os assim separados em bolsos diferentes e levantou-se.

Correu até ao Nº 8 da mesma rua e tocou no 3º Esqº. O trinco da porta do prédio destrancou-se, subiu o 1º lanço até à abertura das escada e perguntou lá para cima.

- O Miguel está!?  A mãe do Miguel assomou ao patamar e respondeu.

- O Miguel está a estudar, quando acabar é que pode ir brincar.

- Está bem. Respondeu.

Correu rua abaixo até casa, entrou a correr e foi buscar a bola ao quarto. A mãe resmungou qualquer coisa sobre lanchar, só se conseguiu escapar com uma maça na mão. Correu para o pátio que sabia ter um muro contra o qual podia jogar. Imaginou a baliza e o guarda redes, fintou pelo menos 7 defesas imaginários antes de chutar ao muro e marcar um golo de antologia.

Entre dentadas na maçã e fintas passou-se 1/4 de hora. O Miguel apareceu todo limpinho e mostrou-lhe os cromos novos que tinha. Ele tinha conseguido o Diamantino do Benfica.

- Que sorte! E trocaste por quem?

- Pelo Bento.

- Xiii tenho 3 cromos do Bento, vê lá se me arranjas o Diamantino lá com os teus colegas.

Jogaram à bola e depois foram ver se o Zé já podia vir brincar. Treparam para um muro com quase 4 metros e foram até ao quintal do prédio do Zé por cima dos muros. Um gato fugiu assustado e o cão do pátio do Nº 6 ladrou que nem um doido. A Dona Esmeralda apareceu à janela a ralhar que iam cair dali e que ia fazer queixa. Apanharam umas nesperas pelo caminho e provaram, o Miguel deixou cair um pingo de sumo na camisola.

- A minha mãe diz que essas nódoas não saem. O Miguel encolheu os ombros e seguiram.

 

O Zé já podia vir brincar e os três partiram rua abaixo. O mundo estava ali para ser descoberto, havia sempre mais pátios, mais miúdos, mais cromos até ao pôr do sol.

 


publicado por BigJoao às 00:19
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Segunda-feira, 14 de Março de 2011

Os dias

O telemóvel teclou uma melodia no piano que o arrancou de um sono profundo. Carregou no botão da preguiça, emprestando mais 10 minutos ao sono.

Levantou-se e olhou para o armário sem vontade, combinou as cores de forma conservadora e partiu para a higiene diária sem pressa nem euforia.

 

Os dias continuam cinzentos. Tenho feito parvoices, tenho feito disparates, tenho feito coisas bem feitas... mas os dias continuam cinzentos. Tenho saudades de mim, saudades dos outros, vontade de fazer, de ir, de voltar, de querer, de desejar, de ouvir e de falar, de respirar e do ar do mar.

 

Hoje vou correr. Nem que seja à meia noite, vou correr. Preciso de fugir de mim e da concha em que me tenho vindo a embalar. Preciso de agitar ideias, abrir a pestana. Hoje não quero saber da crise, ou do PEC-Man, da geração à rasca, ou de políticos de pacotilha.

 

Hoje o dia é meu!

 


publicado por BigJoao às 17:31
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Segunda-feira, 17 de Janeiro de 2011

a vida tem destas coisas

Dizem que a vida continua... e continua, continua. Sempre contínua, numa sucessão de altos e baixos contínuos, não contíguos.

Por vezes parece que assisto na plateia a um sonho mal realizado, com maus atores a interpretarem um mau argumento. A espaços somos surpreendidos por um bom filme, uma situação inesperadamente agradável, como por exemplo as músicas abaixo:

 

 

ou mesmo esta:

 

A espaços um candidato presidencial fala em valores que nos são caros, ainda que os atire para a mesa numa cartada de sueca mal ensaiada. A espaços as pessoas surpreendem-nos com uma palavra, um olhar cúmplice, um jantar bem conversado, um bar bem musicado. A espaços somos mais nós.


publicado por BigJoao às 15:54
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Segunda-feira, 1 de Dezembro de 2008

Al-Jazaïr - Com-petência

Esta malta é de uma com-petência!!!! :):)

Isto é de ir às lágrimas! Hoje o chefe do projecto foi informado que a reserva do quarto foi feita só até dia 29, por isso vá dormir onde entender porque o hotel está cheio e não têm quarto para os dois dias que ainda vai ficar. :) :) :) :) Atendendo a que o pedido de marcação foi feito por escrito e que já é a terceira vez que acontecem destas...

Mas não vos vou aborrecer com questões menores, isto se o chefe não me quiser desalojar do quarto, mas a esta hora já não corro esse risco. :)

Já começo a bater mal. Vou-vos relatar duas situações de um absurdo gritante.
Por motivos religiosos, e nesta terra tudo tem motivos religiosos, os cães são vistos como animais sujos. Por isso é raro, raríssimo ver um cão e nunca têm coleira. No total devo ter visto 3 cães desde que cheguei. Curiosamente, no sábado vi um tipo a passear com, pasmem, uma ovelha pela trela no meio da cidade de Argel, capital do 10º país maior do mundo em área. Nesse mesmo dia vejo um pastor a conduzir um rebanho de "moutons" nos arrebaldes da cidade. O que será que diz o corão sobre as ovelhas!? Tenho aqui um exemplar no quarto, mas como está em árabe ainda não me abalancei a ler, mas é um livro bonito.

Esta é a foto do acontecimento


TIREM-ME DAQUI!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!- !!!!!!!!!!!

A segunda e bem pitoresca foi o que vi hoje. Lá ia eu no Eixo-Norte Sul cá do burgo quando em contra-mão na faixa de paragem, vejo um senhor que levava pelos arreios um camelo e um burro. Não se esqueçam que a faixa de paragem é inevitavelmente utilizada por seja quem for, e levar com um camelo pelo pára-brisas, suspeito que não deve ser agradável. :) Mas a lógica deve ser, se está asfaltado, é tudo para usar, senão era um desperdício.

Aqui ficam mais uma fotos, desculpem ser dentro do carro mas não tenho alternativas. :)


publicado por BigJoao às 13:43
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Segunda-feira, 24 de Novembro de 2008

Argel 3

Hoje esteve um sol radioso, senti-me em casa. Ainda estão 16 graus e são 20:00h

Ou me estou a habituar, ou então começo a desligar das pequenas contrariedades. Já percebi que é importante dormir nos trajectos de carro, caso contrário perdemos muito tempo no trânsito que depois não conseguimos recuperar. Não tenho novidades do trânsito, mas sim do espírito.

Aparentemente, um árabe pode dizer uma coisa numa circunstância e o seu inverso 5 minutos depois, se a circunstância mudar. Tudo isto com a mesma ou maior convicção. Não é fácil trabalhar com estes pressupostos. Parece-me que vou ter de escrever bastante :)

Com a nossa forma tão portuguesinha de trabalhar, têm-me conseguido arruinar as noites e o descanso por fazerem tudo em cima do joelho. Estratégia errante, alterações constantes, ideias brilhantes à última da hora, são aspectos normais em Portugal, agora juntem-lhe as características árabes e têm a salada completa.
Dá para perceber porque nunca como país conseguimos manter o norte de África na nossa posse, tinham mesmo que cair, Mazagão , Alcacer Quibir (القصر الكبير), etc...

A correcção e delicadeza no trato continuam a surpreender-me. Tinha que vir o trânsito :), hoje saía do "IC19", quando de repente um automóvel mais ou menos recente (+/- 1994) passa à nossa frente por cima de uma zebra, mesmo à frente de dois polícias. Até aqui, tudo normal. Mas o polícia deve ter acordado com os pés de fora e mandou-o parar, disse lhe duas ou três palavras e deixou-o seguir. O caricato da história é que o colega do polícia virou-se para o condutor e fez-lhe o sinal internacional de aprovação com o polegar bem para cima, enquanto sorria como quem pede desculpa pelo colega. O condutor nem chegou a parar, abrandou enquanto ouviu um mais que provável "Não voltes a fazer isso".
A parte chata é que eu estava a tentar adormecer, naquela fase de ter os olhos abertos mas estar a desacelerar. :)



Hoje trago-vos esta mercearia tradicional... há de tudo.
Para que entendam melhor... não se podem tirar fotografias a edifícios públicos ou às autoridades (um par de polícias a cada dois cruzamentos). Basicamente, se mexe é polícia, se não mexe é edifício público! :


publicado por BigJoao às 20:25
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