Quinta-feira, 27 de Outubro de 2016

Amei

Confesso que amei. Amei e tenho amado sem moderação nem reservas, sem temor nem calculismo. Amei porque sim.

 

x.jpg

Tive essa sorte de amar, de me apaixonar de me entregar sempre e mais uma vez. Apesar das quedas, dos desastres, dos estampanços de frente, continuei com uma quase candura a querer amar como da primeira vez. Em cada amor acabado deixei uma parte de mim, pelo que agora sinto-me um pouco por todo o lado. Partes que somadas não fazem um todo. Um braço aqui, um pé ali e no entanto sinto-me inteiro. Um pouco mais nostáligico do que podia ter sido, deste ou daquele futuro que se esboroou com o fechar da cortina.

 

O meu porto seguro são essas nódoas negras, são a única coisa que tenho garantida.

A questão é mesmo não desistir, porque olho à volta e vejo tantos braços caídos, tantas pessoas sentadas no lancil do passeio acarinhando as suas feridas e nódoas negras.

Sinto sempre a esperança de levantar voo e sentir-me mais, melhor que eu, capaz de tudo o que não sou. 

 

 

 

HMB ft. Carminho - O Amor é Assim

 

Estou a ver as nuvens escuras ao fundo, mas não me vão apanhar.


publicado por BigJoao às 16:25
link do post | Comentar retratos | favorito
Quinta-feira, 19 de Junho de 2014

e tu?

Recordo-me ocasionalmente da tua ausência, do teu espaço dentro de mim, hoje tão reduzido quando comparado com a galáxia de possibilidades que me oferecias. Recordo-me com um misto de saudade e consciência de que a nossa natureza humana vence sempre, que o espaço que ocupaste hoje parece um deserto frio de areia e rocha onde antes florescia uma paisagem verdejante paradisíaca.

 

 

Magoa-me a minha inconsciência de que tudo aquilo poderia nunca mais ter igual, poderia ser único. Que burro! Como pude achar que aquelas emoções eram minhas quando na realidade só as emprestaste? Vivi tudo como se pudesse durar para sempre... éramos deuses sem o saber.

 

 

 

The XX - Intro

 

Hoje olho para dentro, para o deserto, e não consigo imaginar que torrente de água e verde alguma vez conseguirá devolver sequer vida à desolação evidente. Hoje ignoro alguns avanços porque todos me parecem torpes, hoje sei que todo esse espaço é teu, ainda que já lá não estejas. Hoje todo esse espaço me parece inútil embora não o dispense, pois lembra-me que já o vivi. Ocasionalmente alguém o atravessa e espanta-se tentando imaginar a dimensão de tal amor, como uma criança de braços abertos explica o tamanho do mar e com os seus pequenos braços o pensa abraçar.

 

Salgaste o terreno hoje abandonado, sabendo que nem tu nem ninguém o voltaria a usar. Tu porque não te reconheço, não és a mesma de outrora, deixaste a vontade lá atrás algures naqueles dias e já não contas com a minha ajuda. Mais ninguém porque acabo por não o permitir, sem vontade nem vigor, porque nenhuma construção vale a pena se não ambiciona sequer 1% do que lá vivemos.

Partiste é certo, mas o que deixaste para trás, ainda que vazio, ainda lá está.


publicado por BigJoao às 17:20
link do post | Comentar retratos | favorito
Sexta-feira, 20 de Setembro de 2013

A libertação

Talvez tenhamos que nos libertar dos bens materiais para atingirmos a felicidade. Nesse caso estou quase lá.

Talvez tenhamos que nos libertar de toda a zanga e simplesmente aceitar os factos da vida.

Talvez me converta ao budismo, ao islamismo, ao "abdicarismo", ao "desistismo", ao "abstinentismo" e a mais qualquer outro "ismo" de que me lembre.

 

Foto de sem abrigo (Reuters)

foto Reuters

 

E o que é a verdade!? Talvez um dia a verdade aconteça, talvez germine e cresça como um rebento de soja. Talvez a minha verdade esteja errada e tortuosa. Talvez se me libertar de ideias pré-concebidas que desconheço, ela se erga numa coluna de fumo e luz.

 

Olho para uma vida cheia de becos sem saída e apostas falhadas. Diz-se que "o que não nos mata torna-nos mais fortes", e se nos matar? Se nos formos tornando sombras de nós mesmos a pouco e pouco. Os dedos sem sentir a pouco e pouco. As pancadas já sem doer, a pouco e pouco. Sem capacidade de reacção. Um esgar no rosto sem sequer parecer um sorriso, uma careta.

As palavras foram lapidares, a conclusão foi tirada. As chaves do carro ficaram sobre a secretária vazia, a mochila no chão ao lado desta. Sem sentir a cadeira a arrastar, levantou-se e saiu indiferente aos protestos que as coisas não estavam terminadas. Precisava de ar.

Os olhos pequenos, já crescidos de olhar. Os ouvidos cheios de sons, uns bons outros maus. Uns breves outros longos e agudos como estiletes. A narrativa da mentira, a narrativa da boçalidade destrutiva como um buldozer. Cabeças de criança terraplanadas de ideias violentas, de destruição brutal.

 

Ninguém nos prepara para isto quando temos um filho. Ninguém nos prepara para isto quando temos dois. Ninguém.

Tornamo-nos sombras, espectros. Sem rumo, sem norte, sem conteúdo.

Seja feita a vossa vontade.

 

 

 

Tiago Bettencourt - O Jogo


publicado por BigJoao às 02:11
link do post | Comentar retratos | favorito
Segunda-feira, 6 de Maio de 2013

Estado gasoso

Dave Matthews Band - If Only

 

 

Hoje levantei-me e passei o dia a fazer coisas. Coisas. Nem me lembro bem o que fiz, mas sei que fiz algumas das coisas que tinha que fazer.

Parece que ando a meio metro do chão. Costumo associar este estado à paixão, mas isso não existe neste momento, talvez seja a nostalgia da paixão.

 

Foto de Walker Evans

 

Há quem defenda que é mau estar apaixonado, mas não me sinto vivo sem paixão, sem amor. Por isso fiz coisas... é o que vou fazendo sem essa emoção que me devora, que me controla.

 

Mudei de casa. Enquanto tiro os livros dos caixotes e os arrumo, encontrei "Os versos do capitão" do Neruda e vieste-me à memória. Tu e a determinação incontrolável que sentia de te ter, de te fazer e ser feliz. Parece inacreditável como continuas viva dentro de mim, como se tivessemos estado juntos ontem. Como se ainda te sentisse o cheiro, o teu corpo contra o meu. Como se ainda sentisse a pele na pele. Se quiser, consigo lembrar-me dos detalhes do teu corpo, dos teus gestos.

 

A vida continua. Fiz uma massada de goulash com caril. Não sei se faça sopa, mas não me apetece sopa; faço amanhã.

Tanta coisa para fazer e tu a pensar em disparates... se não dá, não dá, porque é que insistes!?


publicado por BigJoao às 23:11
link do post | Comentar retratos | comentários aos retratos (1) | favorito
Quinta-feira, 4 de Abril de 2013

Parece mentira

O dia rasgou a noite, como o sol rompeu a chuva. De tempos a tempos procuro o arco-íris sem o descobrir.

 

Mariza - Chuva

 

A vida continua a surpreender-nos aqui e ali, mas as emoções fortes são o que nos faz sentir vivos.

Por vezes somos fortes, outras frágeis, outras somos só espectadores.

Não consigo ser inteiro, nem alto, nem distinguir o principal. Busco o principal mas o secundário distrai-me. Espero dos outros as soluções que não construo. Destruo o que não me destroi, na ânsia do que me desfoca.

 

 

E esta chuva que me inunda a alma em jorros de insanidade. Sinto-me a enlouquecer. Deixei de acreditar em mim, no que faço. Deixei de acreditar na consequência do que faço. Deixei... escapar-te entre os dedos... porque não tinha força para suster-te nas mãos. Como se a areia pesasse toneladas e os dedos cedessem.

Não consigo pensar nem ser razoável, como sempre fui. Tudo me magoa, me atinge... apetece-me chorar toda esta chuva, inundar campos de lágrimas. Para que floresçam malmequeres e papoilas fortes e viçosas de emoções choradas, mortas.

Tudo se mistura numa amalgama indistinta de amores, família, trabalho. Tudo.

 

Lembro-me do teu queixo a tremer, meu filho, enquanto resistias a deixar correr nem que fosse uma lágrima. Bastava  um sopro nessa altura e elas correriam numa torrente libertadora. O pai também não consegue chorar... nem sei bem porquê. Mesmo assim resististe quase cinco minutos. Não pensei que tivesses endurecido tanto.

Também me lembro da tua alegria, do teu sorriso.

Um dia vamos chorar e rir de tudo isto. Um dia vamos rir.


publicado por BigJoao às 00:11
link do post | Comentar retratos | comentários aos retratos (2) | favorito
Terça-feira, 1 de Janeiro de 2013

Aquela pequena dor

Adotei o novo acordo ortográfico. Espero conseguir adaptar-me ao que me proponho, em nome da standardização pretendida.

 

Acordei sem me levantar. A falta de vontade é gigantesca, pareço uma grua gripada.

A cabeça sempre a pensar... será que não se consegue parar de pensar? Esvaziar a cabeça?

Sinto-me desfocado. Uma fotografia tirada à noite, quase sem luz, cheia de grão, desfocada e tremida.

 

(foto de Aníbal Novo)

 

Percorro as ruas de Lisboa, sem as ver. Os caminhos quase de cór, sem os sentir.

As ruas sem a agitação de outros Natais, agonizam exangues, pobres, lentas.

 

Também não sinto o Porto, nem as suas calçadas cinzentas de cimento entregues às gaivotas, companheiras de sempre. Para elas não há crise, nem governos, não há troikas, nem empréstimos.

 

Não me sinto por milhões de pequeninos motivos. Por milhões de pequeninas dores.

 

Rui Veloso - Pequena Dor

 

A reação tarda em chegar. De repente faz-se o clique, mas até lá é preciso esperar. Não vejo como nem porquê, mas esperar parece ser a melhor opção.

Onde está o projeto que me vai fazer levantar cheio de vontade de fazer coisas? Estou à espera desse clique.

A vertígem de estar tudo em aberto pode ser aterradora. O mundo está aí ao meu dispôr. É só apontar numa direção.


publicado por BigJoao às 12:52
link do post | Comentar retratos | favorito
Quinta-feira, 6 de Dezembro de 2012

Luanda

Com o visto no passaporte entrou no avião. Sete horas bastavam para por o pé naquela terra vermelha de Luanda... de África. Uma semana em Luanda não deu para ver nada, só para aguçar ainda mais o apetite.

 

À saída do avião 29 graus de temperatura e um ar cheio de aromas distintos, únicos. Sempre aquela estranha sensação de que continuamos em casa. Sempre a ideia que as atitudes são semelhantes, a cultura é igual.

 

A ilha, a marginal, o Banco Nacional de Angola, lindos! Tudo arranjado, é lindo.

 

Amei lá estar. Podem dizer tudo, que está tudo estragado, eu sei lá... mas é fantástico. :)

 


publicado por BigJoao às 00:08
link do post | Comentar retratos | favorito
Sábado, 17 de Novembro de 2012

Sinal

Hoje lembrei-me de uma das melhores canções de sempre da música portuguesa.

 

 

 

De Luís Pedro Fonseca, que a sentiu, escreveu e lhe deu corpo, para a Lena d'Água, que lhe deu voz e inspiração. O José Cid já a interpretou e até uma miúda que mal sabe falar português (é uma versão linda).

 

Sempre que o Amor me quiser

Basta fazer-me um sinal

Soprado na brisa do mar

Ou num raio de sol

Sempre que o Amor me quiser

Sei que não vou dizer não

Resta-me ir para onde ele for

E esquecer-me de mim

E esquecer-me de mim

 

Como uma chama que se esquece

Numa fogueira que arde de paixão

 

Sempre que o Amor me quiser

Sei que a razão vai perder

Que me hei-de entregar outra vez

Como a primeira vez

Sempre que o Amor me quiser

Vou-me banhar nessa luz

Sentir a corrente passar

E esquecer-me de mim

E esquecer-me de mim

 

Como uma chama que se esquece

Numa fogueira que arde de paixão

 

Sempre que o Amor me quiser


publicado por BigJoao às 15:56
link do post | Comentar retratos | favorito
Quinta-feira, 6 de Setembro de 2012

Quente

O último estremeção descontrolado num esgar de esforço envolto por uma inundação simultânea de prazer. A maré alta dos sentidos.

Os corpos suados, colados em humidade, tombados um e outro por uma respiração cada vez menos ofegante.

 

 

 

O mundo vai lentamente voltando a existir na forma de luz, som e tacto. A brisa abana as cortinas e faz-se sentir num toque suave, quase doce sobre a pele. Os movimentos lá fora adivinham-se pelos sons que chegam à janela. Um carro que arranca, um cão a ladrar, uma porta a bater...

 

São momentos eternos. O prazer é divino, os deuses são eternos, então os momentos são eternos.

 

(...) ainda te sinto em mim, ainda penso em ti, pensa em mim, mas só mais uma vez (...)

 

Tiago Bettencourt & Mantha - Só mais uma volta


publicado por BigJoao às 00:46
link do post | Comentar retratos | favorito
Quinta-feira, 23 de Agosto de 2012

Crescemos

Crescemos sempre, melhor ou pior vamos crescendo. Vamos apanhando pancada na vida, mas crescemos sempre.

Uns crescem mancos, outros corcundas, outros ainda cegos. Não me refiro a deficiências físicas, refiro-me a condicionamentos ou incapacidades que vamos adquirindo ao longo dos anos.

 

 

Se nos cortam a liberdade de expressão ou não nos respeitam as opiniões, com o tempo e a repetição destas situações, acabamos por nos convencermos que a nossa opinião não tem valor. Seremos incapacitados nesta área, analfabetos de opinião.

Se nos impedem de demonstrar emoções, acabamos por tapá-las dentro de nós. Faremos de tudo para nunca admitir que sentimos, pois os sentimentos podem ser perigosos se forem diabolizados desde cedo... pelo menos é assim que os vamos ver.

Se nos cortam a agressividade rente, seremos incapazes de nos defendermos perante um acto agressivo.

Se nos convencem que somos os melhores sprinters do mundo e acabamos por nunca ser ou sequer andar lá perto, então o mundo é que está mal, não será seguramente a mamã...

 

 

António Zambujo - Fortuna


publicado por BigJoao às 02:49
link do post | Comentar retratos | favorito

.mais sobre o Big

.pesquisar

 

.Novembro 2016

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
17
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29


.posts recentes

. Amei

. e tu?

. A libertação

. Estado gasoso

. Parece mentira

. Aquela pequena dor

. Luanda

. Sinal

. Quente

. Crescemos

.Posts do tempo da Maria Cachuxa

.tags

. todas as tags

.Links

.Contador

blogs SAPO

.subscrever feeds