Terça-feira, 1 de Janeiro de 2013

Aquela pequena dor

Adotei o novo acordo ortográfico. Espero conseguir adaptar-me ao que me proponho, em nome da standardização pretendida.

 

Acordei sem me levantar. A falta de vontade é gigantesca, pareço uma grua gripada.

A cabeça sempre a pensar... será que não se consegue parar de pensar? Esvaziar a cabeça?

Sinto-me desfocado. Uma fotografia tirada à noite, quase sem luz, cheia de grão, desfocada e tremida.

 

(foto de Aníbal Novo)

 

Percorro as ruas de Lisboa, sem as ver. Os caminhos quase de cór, sem os sentir.

As ruas sem a agitação de outros Natais, agonizam exangues, pobres, lentas.

 

Também não sinto o Porto, nem as suas calçadas cinzentas de cimento entregues às gaivotas, companheiras de sempre. Para elas não há crise, nem governos, não há troikas, nem empréstimos.

 

Não me sinto por milhões de pequeninos motivos. Por milhões de pequeninas dores.

 

Rui Veloso - Pequena Dor

 

A reação tarda em chegar. De repente faz-se o clique, mas até lá é preciso esperar. Não vejo como nem porquê, mas esperar parece ser a melhor opção.

Onde está o projeto que me vai fazer levantar cheio de vontade de fazer coisas? Estou à espera desse clique.

A vertígem de estar tudo em aberto pode ser aterradora. O mundo está aí ao meu dispôr. É só apontar numa direção.


publicado por BigJoao às 12:52
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Quinta-feira, 6 de Dezembro de 2012

O sucesso

As relações, os afectos, os filhos, a família, os amigos, os colegas, os cursos, as certificações, o trabalho, os bens ... qual é a medida do sucesso? Qual é a medida do falhanço?

 

É difícil sentir-me bem em mim. Por vezes preciso do silêncio, preciso de estar comigo. Saí de casa com a chuva a cair. Protejo o livro dentro do casaco, não gosto de ver livros com páginas molhadas de chuva. Não vou ler, quero simplesmente a sua companhia. Aquele cantinho acolhedor resguardado dentro do casaco.

 

 

Respiro. Inspiro aquele ar frio... expiro-o já processado. Nada de especial, sempre o fiz. Sempre não! Houve aquele dia em que te estava a chatear de propósito irmã. Era grande mas imaturo, como todos os rapazes de 15 anos a chatear as irmãs são. Já não me conseguias bater sem que o deixasse. Deste-me um murro nas costas e de repente parei de respirar. Incrédulo quis inspirar e não consegui, uma, duas, três tentativas e nada... já deitado no chão lá comecei a conseguir. Não foram mais de 20 segundos mas foi assustador.

Hoje olho para trás e sei que fiz o que tinha que fazer. Melhor ou pior, fiz. Não me devia sentir derrotado, sem vontade. Nem eu nem os outros 16,9% de desempregados.

 

Hands on Approach - Days of Our Own


publicado por BigJoao às 00:18
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Sexta-feira, 2 de Novembro de 2012

O olhar

Estava uma manhã fria e húmida. O nevoeiro não deixava ver mais de 30 metros em redor.

 

Saiu da pastelaria aborrecida. O empregado nunca reparava nela, parecia que nunca a ouvia. Apesar dos seus pedidos repetidos por uma torrada e uma meia de leite, era surdo à sua voz. Perdia sempre imenso tempo na pastelaria, mas raramente perdia o autocarro das 8:10h.

 

 

Às 8:27h entrava no barco para o Terreiro do Paço, pouco antes das 9:00h estava a entrar na loja.

 

Sempre a mesma rotina, sempre a mesma vida. Poucas surpresas. A família esperava dela que casasse e tivesse filhos, mas nenhum rapaz parecia ser o tal. Nenhum príncipe encantado, só desilusões desdentadas e desbocadas.

Fora educada para se portar bem e por essa via chamar a atenção de um bom rapaz, como lhe dizia a mãe. As pessoas já não pareciam valorizar essa postura e ela esperava, esperava sempre... dos olhares cruzados à troca de palavras, destas à desilusão e até mágoa, nunca ia grande distância.

Ia continuar à espera, sempre à espera. Uma vida assim, deitada fora por convicções que nem sabia se eram realmente dela.

 

Crowded House - Don't Dream It's Over


publicado por BigJoao às 01:29
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Quinta-feira, 27 de Setembro de 2012

Manifestações

Manifestei-me? Claro que sim!! Não aceito políticas erráticas implementadas só "porque sim".

Vai surgir uma solução? Nem por isso. Acredito que vão surgir pequenas soluções, se houver tempo... se o sistema não tombar de podre.

Vamos viver num estado de direito? Não. Excepto se a justiça se levar a si própria a sério e começar a julgar com base no espírito  da lei.

 

 

É interessante espreitar o termo "Justiça" na enciclopédia. Dá-nos a real dimensão da distância que temos a percorrer. É quase assustador.

A equidade por exemplo (simbolizada pela balança), onde está a equidade!? A imparcialidade (simbolizada pelos olhos vendados) não passa de uma miragem. A coragem (simbolizada pela espada) não passa de uma anedota nos dias de hoje.

 

Não me refiro aos processos pequenos em que um sem abrigo rouba um polvo e um champô, porque nesses a coragem necessária não é superior à necessária para atravessar a rua, a imparcialidade até acredito que exista, já a equidade... enfim.

 

Ontem vi um casal de idosos, até com bom ar, furtar pão no supermercado! Pão!!!!!!!!

O que fazer? Claro que não os denunciei, pagar-lhes o pão só os iria envergonhar, pelo que sobrava deixar as coisas entregues ao destino.

 

Outro aspecto prende-se com alguns dogmas existentes no sistema de justiça. Por exemplo, os filhos devem ficar sempre a cargo da mãe. Como diria um qualquer jurista, "in dubio para a mãe".

 

Presuntos Implicados - Alma de Blues


publicado por BigJoao às 00:52
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Quinta-feira, 6 de Setembro de 2012

Quente

O último estremeção descontrolado num esgar de esforço envolto por uma inundação simultânea de prazer. A maré alta dos sentidos.

Os corpos suados, colados em humidade, tombados um e outro por uma respiração cada vez menos ofegante.

 

 

 

O mundo vai lentamente voltando a existir na forma de luz, som e tacto. A brisa abana as cortinas e faz-se sentir num toque suave, quase doce sobre a pele. Os movimentos lá fora adivinham-se pelos sons que chegam à janela. Um carro que arranca, um cão a ladrar, uma porta a bater...

 

São momentos eternos. O prazer é divino, os deuses são eternos, então os momentos são eternos.

 

(...) ainda te sinto em mim, ainda penso em ti, pensa em mim, mas só mais uma vez (...)

 

Tiago Bettencourt & Mantha - Só mais uma volta


publicado por BigJoao às 00:46
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Sábado, 25 de Agosto de 2012

A riqueza

Continuo a perguntar-me. É este o modelo de país em que queremos viver? Há algum político satisfeito com o estado a que trouxe país? Haverá algum ego inchado e orgulhoso com o nosso desenvolvimento?
RTP concessionada, TAP vendida com hub simbólico em Lisboa, EDP e REN chinesas,
Galp privada (e agora a ganhar dinheiro como nunca), 10 estádios novinhos, aeroporto abandonado em Beja, 15% de desemprego (oficial), interior sem ninguém, a horrorosa grande Lisboa, as lamentáveis Portimão e Praia da Rocha...

 


E sempre esta obcessão dos empresários com os despedimentos. As empresas são as pessoas que lá trabalham e as ideias que têm... o resto são instalações, prédios, armazéns, viaturas... nada valem, não geram riqueza. Por isso não entendo as racionalizações e reformas antecipadas obcessivas. Por isso detesto a frase repetida e quase metálica, "há mais alguma coisa em que possa ser útil?", por reflectir ignorância e insinceridade. Reflecte a simples obediência ao "road book" dos call centers, obediência cega em vez de uma vontade real em ajudar.

 

Em Portugal nunca se fazem avaliações, balanços efectivos. Nunca se tomam medidas em consonância com as conclusões a que se chega. O despudôr dos políticos é o reflexo do "deixa andar" popular e a justiça acaba por se travestir de anedota.

 

É melhor ir dormir, caso contrário amanhã faço uma revolução.

 

Xutos & Pontapés - Para sempre


publicado por BigJoao às 01:51
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Quinta-feira, 23 de Agosto de 2012

Crescemos

Crescemos sempre, melhor ou pior vamos crescendo. Vamos apanhando pancada na vida, mas crescemos sempre.

Uns crescem mancos, outros corcundas, outros ainda cegos. Não me refiro a deficiências físicas, refiro-me a condicionamentos ou incapacidades que vamos adquirindo ao longo dos anos.

 

 

Se nos cortam a liberdade de expressão ou não nos respeitam as opiniões, com o tempo e a repetição destas situações, acabamos por nos convencermos que a nossa opinião não tem valor. Seremos incapacitados nesta área, analfabetos de opinião.

Se nos impedem de demonstrar emoções, acabamos por tapá-las dentro de nós. Faremos de tudo para nunca admitir que sentimos, pois os sentimentos podem ser perigosos se forem diabolizados desde cedo... pelo menos é assim que os vamos ver.

Se nos cortam a agressividade rente, seremos incapazes de nos defendermos perante um acto agressivo.

Se nos convencem que somos os melhores sprinters do mundo e acabamos por nunca ser ou sequer andar lá perto, então o mundo é que está mal, não será seguramente a mamã...

 

 

António Zambujo - Fortuna


publicado por BigJoao às 02:49
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Sexta-feira, 11 de Maio de 2012

Somos nós

As mãos dormentes... o torpor do álcool. De repente os sons soam melhor, mais límpidos. Será possível que já bebi meia garrafa? Bom vinho este. Santa Marta de Penaguião é uma bonita zona, feita de anos de trabalho, anos de vidas vividas para cada socalco. A esperança a cada colheita, a esperança de colher as uvas de um futuro vinho memorável... daqueles que só vão ser bebidos daqui a 40... 50 anos!

 

Pedro Abrunhosa - Se eu fosse um dia o teu olhar

 

Ao fim do dia de vindima, a taberna. A conversa com os homens de mãos ásperas, calejadas da tesoura de apanhar as uvas e segurar em "Mines", ou em copos de tinto. A conversa sem nenhum rumo, fala-se das propriedades, da qualidade da uva, do tempo que fez este ano, do que tem o patrão A e o B... deita-se conversa fora. De manhã, a esperança que da vindima apareça um vinho extraordinário, a esperança de ter contribuído e participado nessa criação. A esperança que os "estrangeiros" premeiem aquele vinho, aquela criação...

Um dia a seguir ao outro. Uma tia que morre, um primo que sofre um acidente, uma festa das vindimas, um baptizado, um tio que volta de França, um primo que deixa os estudo e vai pastar ovelhas.

 

Portugal também é isto... não é só viver em Gondomar ou no Cacém... também é isto.


publicado por BigJoao às 00:39
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Domingo, 29 de Abril de 2012

Já não fumo

Levanto-me da cadeira e vou à janela. Lá fora chove e a iluminação de rua empresta um tom surreal à imagem, enriquecida pelo som monótono de milhares de pingos a caírem no chão, nos carros, nas árvores, na roupa. Sinto frio, mas fico mais um pouco. Ninguém na rua.

 

Chuva

 

Se fumasse acenderia agora o cigarro e deixaria de sentir a dor, deixaria que o fumo ocupasse o vazio. Podía encher a cabeça de música de batida previsível, sem riqueza instrumental nem rasgos de génio ou não. Talvez numa qualquer danceteria, com um qualquer grupo de amigos mais ou menos perfeitos desconhecidos, mas isso nunca me preencheu. Podia bater com a cabeça na parede, amolgar a tinta, amolgar-me por dentro. Retirar a forma, atribuíndo-lhe novos tons, novas claves de sol ou de dó, dó de mim próprio. Que patético... auto-comiseração... será que agora deu-me para isso? Como cheguei aqui?

 

Volto para a cozinha, pego no grão demolhado e deito na panela de pressão, junto água e ponho ao lume. Olho o relógio e calculo a hora a que estará pronto. Tarefas rotineiras que me trazem de volta. A vida chama, puxa por mim, por todos. O mundo não espera que eu resolva nenhum problema. Porque haveria de esperar?

Assumo as minhas responsabilidades, todos temos que o fazer.

 


publicado por BigJoao às 00:04
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Terça-feira, 17 de Abril de 2012

... e o amor?

Olhou à volta e viu a outra margem. Não sentia nenhum apelo, nenhum chamamento, nada. Só o vazio o acompanhou, enquanto de blusão vestido e mãos enterradas nos bolsos caminhou ao longo do rio. O frio continuou a entrar por todas as frestas possíveis e sempre a conseguir encontrar uma superfície de pele. Pele que passava a ser de galinha.

 

 

 

O coração é uma estranha dimensão do ser. Agora batia compassado, ritmado pelos seus passos, um autêntico metrónomo. E no entanto até podia estar parado. Batia onde, se estava tão cheio de vazio? Experimentou correr só para o sentir melhor, para que batesse com força no peito e voltasse a estar vivo. Parou. Embora continuasse a bater não resultava de nenhuma emoção, só batia. Não chega. Para quê bater sem emoção!? Sem emoções somos vegetais, plantas que se mexem, crescendo envelhecendo sem objectivo. Envelhecer não basta.

 

Somos todos diferentes uns dos outros. Uns conservadores outros liberais, uns altos outros magros, uns maduros outros entropecidos, uns alegres outros pobres. Resultamos de combinações improváveis e nem sequer temos a certeza do que procuramos. O que procuramos para nós, para os outros, para os nossos. Essa diferença é bela e aterradora. Aterradora porque separa, bela porque junta.

Se fossemos iguais seríamos incapazes de amar. Não conseguiríamos distinguir o amor por um filho, do amor ao próximo. Não existiria amor, seríamos ... alfaces.

 

Caminhou até chegar ao fim do trilho. Olhou o horizonte cinzento e pensou na fotografia estranha que daria. Um mar cinzento, interligado a um céu enublado, carregado de chuva. A preto e branco, em tons de cinzento.

Voltou para trás pelo mesmo trilho e o céu desabou sobre ele, mas não lhe pesou.

É leve o céu.


publicado por BigJoao às 22:56
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