Quarta-feira, 20 de Abril de 2011

O anzol

A tarde preguiça e espreguiça-se enquanto se arrasta indulente num desfolhar de horas que jazem inertes, já gastas pelo chão. Finalmente encosta-se à noite suave e calorosamente, misturando-se até se tornarem numa só.

 

 

Tenho saudades de quando fumava. Havia sempre companhia dentro de cada cigarro. Havia sempre alguém com quem partilhar aquela fraqueza que entra pela boca e queima o seu caminho, até finalmente espalhar o seu calor nos pulmões. Uma leve tontura após cada passa, os olhos a arder por cada vez que o fumo lá chega. A roupa e o interior do carro sempre cheios de cinza, a cheirar a tabaco ou, o que é pior, a cheirar a tabaco frio. Lembro tudo isto sem pena de ter deixado nem recriminação de quem ainda fuma.

 

 

 

 

Sinto que as coisas comigo acontecem sempre fora de tempo. Devo ser eu, deve ter a ver comigo, com a minha forma de estar.

Já me acusaram de ser racional, mas o que sinto é exactamente o contrário. Sinto que ando sempre a sofrer as consequências de ser impulsivo, mas a verdade é que as sofro sem arrependimento.

Sinto tanta falta de algumas pessoas cá dentro... de quem não esqueci, de quem não quero esquecer, de quem quero lembrar. O tempo faz o seu trajeto implacável e esboroa rochas outrora sólidas, esbate cores outrora garridas. Só não descolora o que sentimos, isso fica cá dentro no quentinho, no aconchego do que nos é querido.

 

Sou como as crianças, necessito de confirmações...


publicado por BigJoao às 16:01
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Quinta-feira, 10 de Fevereiro de 2011

Insanidade

A notícia saiu no jornal sem qualquer enfase em especial, escrita num tom quase monocórdico.

 

Resumindo, uma criança de 4 anos assiste ao avô a matar o pai, depois deste conseguir a visita da filha após longas demandas em tribunal. Pai advogado, mãe juíza em Ílhavo (terra que até conheço), num portugal supostamente desenvolvido.

 

http://jornal.publico.pt/noticia/09-02-2011/violadas-regras-de-visitas-a-menina-de-oliveira-do-bairro-21255173.htm

 

Até onde pode ir a cegueira de alguém? O que terá passado pela cabeça do avô? E do pai? E da menina?

Vidas destruídas em nome da "razão". Estupidamente, sem nenhum brilho, sem um rasgo de lucidês.

De repente, pus-me a imaginar os contornos da situação... nem sei o que se passou, nem o que terá justificado o ato.

 

 

.........

O sacana anda há tanto tempo sem pagar a pensão de alimentos. Trabalha com recibos verdes, não declara o que ganha e ninguém o consegue obrigar a pagar a pensão. Nem o tribunal! Quem é que precisa de recibos de um advogado?

Agora quer visitar a menina!? Eu vou lá mostrar-lhe que não pode fazer o que quer. Pensa que manda em quem?

É melhor levar a arma, não vá o tipo passar-se e querer levá-la... tão pequenina, nem percebe o pai que tem.

 

- Já te disse que sou eu que vou, se lhe dá para a querer levar, para fugir, vais fazer o quê? E o avô gosta demasiado de ti para deixar que te levem, não é querida?

Vai correr tudo bem, mas se ele se arma em parvo vai-me ouvir! Recebi-o em minha casa como se fosse um filho, não tem o direito de vir gozar com as pessoas! Não dá nada e quer ver a menina!?

 

- Vamos lá querida. Não percebes nada do que se está a passar não é? Vamos ver o teu pai. Anda.

 

Queria que me afastasse para estar com a menina. Queria ir para perto do carro. Eu percebi bem o que ele queria. A menina começou a chorar, a discussão estalou, quis dizer-lhe duas ou três coisas. Ele respondeu sem respeito nenhum, sem nenhuma consideração. Usa as pessoas como se fossem toalhetes.

- Já disse que fico aqui! Largue a menina, a visita acabou! Você não me empurra!!! Largue-me!!

 

Pam, pam, pam, pam, pam!!!!!!!!

O silêncio... nenhum ruído, nem pássaros, nem cães. O trânsito parou...

Foto de autor. Todos os direitos lhe pertencem.

.........

 

Finalmente vou ver a minha filha!! Tenho tantas saudades dela, das mãozinhas, das bochechas, da voz...

Pensavam que me podiam impedir de estar com ela, mas o tribunal deu-me razão! Seja lá onde for, em casa, num sítio público, no cinema, na prisão, tenho o direito de estar com a Cláudia.

Nunca me deixam ver a miúda mas exigem que pague a pensão!? Bem os tramei! Sempre tiveram dinheiro, se querem luxos, que paguem!

Por esta altura já lhe fizeram a cabeça, que o pai é mau, que não gosta dela, que se gostasse não fazia estas coisas... a ver vamos.

 

- Vou buscar a Cláudia, está-me mesmo a apetecer um abraço dos dela.

Bolas! Cheguei 15 minutos adiantado ao largo. Vou comprar cigarros e o jornal. Trouxe um boneco para ela. Que nervos esta espera.

 

Lá vêem eles, nem vou falar ao velho.

- Cláudia!!! Dá cá um beijo!

- Cláudia! Anda cá ao pai. $#%"

- Já lhe fizeram a cabeça, nem um beijo me dá!?

Baixou-se e abraçou-a. Apertou-a contra si, contra o seu peito.

- A mãe? Pergunta a Cláudia.

- Agora estás aqui com o pai. Anda até ali para estarmos os dois sozinhos.

- Não me apertes pai! Mãe!!! Começa a chorar.

O avô pega num braço da Cláudia e diz que a visita acabou.

- Era o que faltava!!! Estou há 4 meses sem a ver e agora levam-na ao fim de 2 minutos!? Eu sou o pai dela e ela vai ficar aqui comigo.

Empurrei o velho... a Cláudia chora... não tem que se meter entre pai e filha!

- Pensam que são donos dela, mas é a MINHA filha! Eu é que devia autorizar se estão com os avós ou com quem quer que seja!!!

- Pára de chorar e anda cá.

O velho reage com insultos, leva a mão ao bolso, tira uma coisa preta e oiço uma série de estrondos. Que estranho... de repente o silêncio... sinto-me empurrado para trás e estou a ficar sem força... que estranho... sinto a camisa molhada... caio no chão... a Cláudia liberta-se da minha mão... não vás! Ainda nem te dei o boneco...

 

 Madeleine Peyroux - Dance me to the end of love


publicado por BigJoao às 13:16
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Sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

Comportamentos

A arte e o engenho têm uma capacidade de nos modificar, de nos fazer alterar comportamentos como nenhuma outra coisa.

O ser humano foi feito para "fazer coisas", não para preguiçar, nem "ruminar" o passado. Situações provocatórias, podem-nos devolver a infância. Ora vejam o que se consegue com ideias:

 

 

 


Usar mais vezes as escadas pode reduzir o número de ataques cardíacos. Certo?!? :) :)


publicado por BigJoao às 19:11
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Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

Adoro isto

Trabalho numa daquelas empresas de espírito jovem, dinâmico e empenhado. São muitos os tiques de uma cultura de (pseudo) responsabilidade, ainda que unilateral.

 

Nada disto é novidade, empresas destas nascem por aí como cogumelos. O que se passa é que se institui uma lógica de repressão e medo, que impede os indivíduos de se expressarem livremente e de terem comportamentos normais, naturais e até educados. O espectro do desemprego assola em cada esquina, ao fundo de cada corredor, pelo que é fácil manter estes climas.

 

É neste tipo de ambientes que mais gosto de desestabilizar espíritos! Hoje foi um desses dias.

 

Esperei o elevador. Quando parou e as portas se abriram, dei de caras com 16 olhos postos em mim......... o silencio enquanto entro, quase solene, dou uma volta de 180 graus e, já de costas para todos, digo alto e bom som, "Boa tarde!". Milagre!! Percebi o que sente um padre durante a missa! Foi como carregar num interruptor, as 8 vozes fizeram-se ouvir obedientes, quase em uníssono.

 

A educação nunca fez mal a ninguém. Este simples acto pode não produzir resultados visíveis, mas teve impacto naquelas 8 pessoas, como um espectáculo dos "Fura del Baus". Mexeu com eles, incomodou.

 

Bem hajam


publicado por BigJoao às 16:29
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Quarta-feira, 10 de Outubro de 2007

Hoje li esta

Hoje li algures por aqui, mais ou menos que, "A importância dos acontecimentos não se mede pelo tempo que duram mas pelo impacto que têm nas nossas vidas".

Soou-me bem

 

PS: Acho que é do Fernando Pessoa, mas não tenho a certeza.

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publicado por BigJoao às 14:32
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