Domingo, 29 de Abril de 2012

Já não fumo

Levanto-me da cadeira e vou à janela. Lá fora chove e a iluminação de rua empresta um tom surreal à imagem, enriquecida pelo som monótono de milhares de pingos a caírem no chão, nos carros, nas árvores, na roupa. Sinto frio, mas fico mais um pouco. Ninguém na rua.

 

Chuva

 

Se fumasse acenderia agora o cigarro e deixaria de sentir a dor, deixaria que o fumo ocupasse o vazio. Podía encher a cabeça de música de batida previsível, sem riqueza instrumental nem rasgos de génio ou não. Talvez numa qualquer danceteria, com um qualquer grupo de amigos mais ou menos perfeitos desconhecidos, mas isso nunca me preencheu. Podia bater com a cabeça na parede, amolgar a tinta, amolgar-me por dentro. Retirar a forma, atribuíndo-lhe novos tons, novas claves de sol ou de dó, dó de mim próprio. Que patético... auto-comiseração... será que agora deu-me para isso? Como cheguei aqui?

 

Volto para a cozinha, pego no grão demolhado e deito na panela de pressão, junto água e ponho ao lume. Olho o relógio e calculo a hora a que estará pronto. Tarefas rotineiras que me trazem de volta. A vida chama, puxa por mim, por todos. O mundo não espera que eu resolva nenhum problema. Porque haveria de esperar?

Assumo as minhas responsabilidades, todos temos que o fazer.

 


publicado por BigJoao às 00:04
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Terça-feira, 17 de Abril de 2012

... e o amor?

Olhou à volta e viu a outra margem. Não sentia nenhum apelo, nenhum chamamento, nada. Só o vazio o acompanhou, enquanto de blusão vestido e mãos enterradas nos bolsos caminhou ao longo do rio. O frio continuou a entrar por todas as frestas possíveis e sempre a conseguir encontrar uma superfície de pele. Pele que passava a ser de galinha.

 

 

 

O coração é uma estranha dimensão do ser. Agora batia compassado, ritmado pelos seus passos, um autêntico metrónomo. E no entanto até podia estar parado. Batia onde, se estava tão cheio de vazio? Experimentou correr só para o sentir melhor, para que batesse com força no peito e voltasse a estar vivo. Parou. Embora continuasse a bater não resultava de nenhuma emoção, só batia. Não chega. Para quê bater sem emoção!? Sem emoções somos vegetais, plantas que se mexem, crescendo envelhecendo sem objectivo. Envelhecer não basta.

 

Somos todos diferentes uns dos outros. Uns conservadores outros liberais, uns altos outros magros, uns maduros outros entropecidos, uns alegres outros pobres. Resultamos de combinações improváveis e nem sequer temos a certeza do que procuramos. O que procuramos para nós, para os outros, para os nossos. Essa diferença é bela e aterradora. Aterradora porque separa, bela porque junta.

Se fossemos iguais seríamos incapazes de amar. Não conseguiríamos distinguir o amor por um filho, do amor ao próximo. Não existiria amor, seríamos ... alfaces.

 

Caminhou até chegar ao fim do trilho. Olhou o horizonte cinzento e pensou na fotografia estranha que daria. Um mar cinzento, interligado a um céu enublado, carregado de chuva. A preto e branco, em tons de cinzento.

Voltou para trás pelo mesmo trilho e o céu desabou sobre ele, mas não lhe pesou.

É leve o céu.


publicado por BigJoao às 22:56
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Terça-feira, 17 de Janeiro de 2012

... aquilo tinha que acabar!

Há um mês que não os via, um mês que não falava com os filhos.

Ligava todos os dias como se fosse à missa, mas a mãe não passava as chamadas, tirava o telemóvel aos filhos e não os deixava falar.

 

 

 

 

Nesse dia tinha de os ver. Tinha que o fazer. Nada justifica um mês sem os ver, sem lhes falar.

Enviou um sms, avisou que ia sem admitir uma recusa. Atrasou-se... a fulana não se despachava, queria ver isto e aquilo... sonhava acordada sem rumo nem capacidade de decidir se comprava ou não. A angústia tomou conta dele, o volante parecia de espuma... se calhar estava a apertá-lo demais. Entardeceu na estrada. Sabia que não ia chegar a tempo mas havia a possibilidade de ... havia a possibilidade...

 

A rua vazia. Um único prédio novo numa rua... na promessa de uma rua. Qual a probabilidade de acertar no segundo exacto em que o portão da garagem se abria? A frente do carro na abertura da garagem, impedindo o fecho do portão. Incrédulo assistiu aos filhos a correr, a sair do carro e fugir em direcção ao elevador. A fugir de si, do pai.

A partir daí deixou de sentir. Dava passos mas não sentiu os pés no chão. Ignorou a mãe quando passou pelo carro. Deixou de ouvir com clareza. Talvez ela buzinásse. A porta do apartamento à sua frente. Tocou a campaínha com insistência, qual era a pergunta que queria? Qual era a resposta? O que justificava a fuga!?

A porta impassível, sisuda sem compaixão, sem pudor. Chamou, perguntou. A resposta esbarrava sempre na vontade da mãe. O que a mãe queria, o que não queria. Ele queria um beijo, um abraço dos filhos... só isso.

A porta fechada, imóvel, rígida. As mãos no interior sem coragem para a abrir. Sem força para desobedecer.

O alarme a tocar. A mãe lá fora, nem tentou subir. Falava ao telemóvel sem palavras, criando cenários improváveis. Bolsando mentiras. Vómitos de mentiras em GSM. Alta tecnologia a propagar cenários inventados, ao serviço da manipulação.

Finalmente as perguntas tiveram resposta. "Não queriam".

Duas palavras simples, daquelas que se dizem todos os dias. Seja ao Sr. Joaquim da mercearia, ou aos vendedores da Cais em cada sinal de trânsito.

Viu as palavras atravessarem a porta em câmara lenta, cravarem-se em si... no seu corpo. Uma e outra cravaram-se de cada lado da imagem de os ver a fugir de si. Não saiu sangue... nem uma gota. A dor, o absurdo de dor de duas palavras de todos os dias.

Virou costas e desceu... se não queriam era diferente. Completamente diferente.

Passou por alguém. Talvez lhe tenha dito alguma coisa, não ouviu a voz, ou talvez fosse outra pessoa.

Pegou em toda a dor e tentou arrumá-la no carro, mas era um caso perdido. Arrancou com cuidado. Deixou ali algo de si e seguiu.

 

Sem saber como viver, sem dar nome áquela dor, aguentou. O optimismo perdeu-se, a alegria ficou naquele patamar. Nada voltará a ser como dantes.


publicado por BigJoao às 01:27
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Quarta-feira, 27 de Abril de 2011

A lembrar

Alienação parental:

"É o termo proposto por Richard Gardner em 1985, para a situação em que a mãe ou o pai de uma criança a treina para romper os laços afetivos com o outro conjuge, criando fortes sentimentos de ansiedade e temor em relação ao outro progenitor."

 

Hoje em dia, é crime.


publicado por BigJoao às 01:10
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Terça-feira, 26 de Abril de 2011

Porquê?!?

Fixou o símbolo de fabrico da faca com um súbito e desajustado interesse. Os olhos subitamente brilhantes de incompreenção. A pergunta voltou, sem que nenhuma justificação alguma vez fosse boa, alguma vez chegasse para satisfazer a emoção.

 

O silêncio dominou a mesa, a esplanada, a rua. Os carros lá fora pararam, as pessoas deixaram de passar, de falar, de rir.

Ele voltou a explicar, a expôr as suas razões, mas nada justifica o que não tem explicação. Fez gestos amplos, embora contidos, os lábios mexeram-se mas não saiu nenhum som. Pelo menos ela não ouviu nenhum som.

 

Pediu mais água. Bebeu mas continuou com sede. A comida no prato, sem conseguir abrir passagem pela garganta até ao estômago.

 

Concentrou a atenção no copo, sem reparar nos 20cl de capacidade, ou no símbolo pintado no vidro. Olhou-o sem o reconhecer. Repensou todo o percurso, quis desaparecer, quis ... e foi o que fez.

 

 


publicado por BigJoao às 23:09
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Segunda-feira, 25 de Abril de 2011

Que estranho...

Logo hoje, 25 de Abril de 2011 tinha que me dar um rasgo, um surto de clarividência.

Talvez por ser o dia da revolução, da comemoração dos seus 37 anos, tudo se torne claro.

 

Por vezes cedemos às tentação, à vontade ainda que incongruente, ao desejo embora vazio, ao embrulho sem a prenda no interior. Podem-se usar tantas imagens para ilustrar essas situações... mas não passam disso, imagens.

Hoje foi o dia de ver mais além, foi dia de citar Richard Bach porque realmente, não há longe nem distância. Se queres estar num outro lugar, na realidade já lá estás um pouco.

 

 

Quero estar no lugar onde guardo as emoções mais fortes, onde já fui feliz. Em todos os locais onde fui feliz. Com todas as pessoas com quem alguma vez fui feliz. Não quero emoções negativas, só positivas. Ou então, podem entrar as negativas desde que o resultado final seja positivo.

Todas as experiências que valeram a pena ser vividas.

 

Eu vou lá estar. Vou fazer somente o que quero e nada mais. Não se adiam decisões... pois não miúda?

 

PS: Vale a pena ouvir a música toda, que mais não seja, pelo solo de guitarra.


publicado por BigJoao às 14:14
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Quinta-feira, 7 de Abril de 2011

Inquietação

A sensação de incómodo não o largou. Quis sair, deitar-se, levantar-se, correr, mas não o suficiente. Deixou-se ficar, depois partiu.

O dia corria quente, ou antes caminhava a passo, num calor indolente.

Uma folha de publicidade esvoaça rente à calçada, empurrada pela brisa suave. O som dos insectos a voar entre arbustos. O ruído dos carros a passar ecoa por entre as esquinas. Só os seus passos o acompanham juntamente com a sombra, que se projeta sempre a esconder-se do sol.

 

A pouco e pouco vamos apagando tudo o que é negativo das lembranças, até já só restarem os tempos áureos. A mágoa espreita, cada vez mais desatenta, transformando-se numa angústia indistinta, até já não se lembrar porque lá está. Quem foi que a esqueceu ali ou por quem existe.

 

Rebobinou as memórias e tentou recriar a sequência, descobrir quando começou o ocaso, o declínio. Pode ter sido aquela vez em que não a sentiu ali, ou terá sido a outra em que o magoou de propósito? Talvez fosse a falta de comunicação nas suas palavras, na sequência de histórias embrulhadas em palavras, ou outra coisa qualquer.

Pensou "És sempre a mesma coisa! Será que esperas alguém perfeito estando tão carregado de defeitos?", mas nunca achamos serem realmente defeitos. Quis ir lá, refrescar os porquês, saber se eram uma circunstância ou um facto, mas não pôde. Não tinha o direito. Seria demasiado egoísta.

 

"O tempo tudo cura", disse. Havia algumas pessoas a quem gostaria de lembrar esta frase... exatamente aquelas que trataram de transformar as mágoas em azedume.

 

Quero que sobre algo de bom, algo perene.

Pode ser que o mar me traga essa paz. Hoje está um bom dia de mar...

ela está bem, é o que importa.

 

O Guincho

 


publicado por BigJoao às 16:24
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Quarta-feira, 2 de Março de 2011

Pensa em mim

Abriu o site como tantas vezes antes o fizera, a visão de um post de alguém que reconhece... e partiu-se.

 

Nem gostava da cantora, mas a música estilhaçou-o por dentro. Partiu-o em mil pedaços brilhantes e miudinhos, quase pó.

 

Lá estão eles, os lugares que conheci pela sua mão, em que fomos felizes, em que bebemos a felicidade um do outro. Em que nos misturámos como duas mãos num aperto abraçado.

Também eu sei de cor cada lugar teu, e porque não meu.

Basta passarem nas Notícias as buscas de um "afogado" e logo me salta à memória que aquele mar é meu, que ela mo deu uma noite. Basta passarem uma notícia sobre estudantes do Erasmus a serem entrevistados junto ao rio e o coração acelera. Basta ouvir o trânsito de manhã e mentalmente lembro os locais, imaginando-os cheios de carros e condutores impacientes. Ela está em todo o lado, procuro-a em todo o lado...

 

Fomos corajosos. Vivemos as emoções sem nenhuma reserva, sem ter "o pé atrás". Esfolámo-nos todos, pelo que hoje somos ricos. Ninguém se retraiu.

Queria viver tudo outra vez, noutra situação, noutra dimensão, numa outra ilusão, mas estar consciente de que tudo acaba, como tantas vezes disseste.

Hoje dói demais. Esta angústia que reconheço em cada pedra das calçadas onde passámos, daquelas em que ficámos de passar. Dói a cada música das nossas, a cada assunto nosso, a cada lembrança...

 

Por tudo isso...

Mafalda Veiga - Cada lugar teu

sinto-me:

publicado por BigJoao às 15:59
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Quarta-feira, 23 de Fevereiro de 2011

Insanidade II

A realidade ultrapassa sempre a ficção. Ainda foi mais estúpido do que imaginei. Uma visita do pai à própria filha rodeada de gente a escrutinar cada gesto, humilhante para todos os que lá estiveram... só os pais não era suficiente? Deixo o video do que aconteceu.

 

sinto-me:
música: http://www.youtube.com/watch?v=XBtRRqY1h80

publicado por BigJoao às 11:17
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Sexta-feira, 18 de Fevereiro de 2011

Capítulo III

Abriu o frigorífico quase sem vontade de ver, sem fome que o justificasse. O pote daquele doce que lhe tinham dado continuava fechado com o mesmo bolor que tinha na semana passada, no mês passado... parecia que sempre lá tinha estado.

- Será que os outros alimentos percebem que o bolor ali está e começam a produzir o seu próprio? Talvez sejam competitivos...

Voltou a fechar a porta sem nada tirar e dirigiu-se à sala. Olhou os livros um pouco por todo o lado, não lhe apetecia ler, nem o que tinha começado nem nenhum outro. A Tv não passava nada de jeito há uns anos. Gostava de ver o "Biggest Looser", um programa em que os concorrentes profundamente obesos, gordos em todos os aspetos em que se pode sê-lo, se esforçavam por perder peso, por mudar de vida. Recuperavam as formas, a expressão, as caras, os traços no rosto, a vontade. Tinha perdido o último episódio da série e não sabia quem tinha ganho... mas não interessa. Todos ganharam.

Da aparelhagem de som parecia-lhe que não saía nenhum som repousante, só sons ansiosos. Pegou no casaco e saiu. A desarrumação em casa não o deixava lá estar sem uma pontinha de sentimento de culpa por nada fazer, por não arrumar. Atravessou a entrada do prédio e saiu. Uma chuva miudinha esperava-o à porta e acompanhou-o até ao carro a sussurrar-lhe desconforto. Arrancou ainda sem ter a certeza onde ia. Decidiu ir até Alcochete, era suficientemente longe para pensar no porquê do desconforto que o envolvia e só conseguia pensar em coisas boas associadas a essa terra.

Alcochete 1

Sempre em linha reta lembrou os dias em que, na auto-estrada devorava quilómetros em nome de emoções. Nunca lhe custaram a fazer enquanto as emoções o esperaram no fim da viagem, quando o abandonaram, a distância tornou-se pesada, sem sentido. A lembrança de tudo o que viveu deixou-lhe a vista enublada, tantas horas a falar, a tocar, a sentir, a ouvir. Os sentimentos à flor da pele, o prazer de estar, de ver sorrir, de conhecer... tinha saudades de tudo isso. As suas vidas tocaram-se para logo se afastarem, numa dança de coreografia exótica. Estranho como as coisas se evaporam, se desfazem, se desmontam. Só nos resta guardar a lembrança do todo e algumas peças, se for caso disso.

Em Alcochete esperava-o um café num sítio indistinto igual a tantos outros, com sons de máquinas de moer café, de cervejas a serem abertas, de colheres a baterem em pratos, de registadoras. Há aqui uma devoção a D. Manuel I só porque nasceu ali, como se não tivesse sido um tonto, indigno primo e herdeiro de D. João II. Um tipo que expulsa os judeus só para agradar aos vizinhos espanhóis, que instaura a inquisição pelos mesmos motivos... acho que está tudo dito.

 


publicado por BigJoao às 15:11
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