Quarta-feira, 23 de Março de 2011

Crescemos

Sentou-se no passeio. As pedras da calçada polidas do movimento semanal serviam perfeitamente para o que queria. Não se importou se sujava os calções ou se podia romper os ténis, nem o que pensariam os adultos que passavam por ele na rua.

Tirou do bolso os cromos e fez a contabilidade dos que tinha repetidos e dos que tinha trocado. Separou os "novos". Iam direitinhos para a caderneta quando chegasse a casa. Guardou-os assim separados em bolsos diferentes e levantou-se.

Correu até ao Nº 8 da mesma rua e tocou no 3º Esqº. O trinco da porta do prédio destrancou-se, subiu o 1º lanço até à abertura das escada e perguntou lá para cima.

- O Miguel está!?  A mãe do Miguel assomou ao patamar e respondeu.

- O Miguel está a estudar, quando acabar é que pode ir brincar.

- Está bem. Respondeu.

Correu rua abaixo até casa, entrou a correr e foi buscar a bola ao quarto. A mãe resmungou qualquer coisa sobre lanchar, só se conseguiu escapar com uma maça na mão. Correu para o pátio que sabia ter um muro contra o qual podia jogar. Imaginou a baliza e o guarda redes, fintou pelo menos 7 defesas imaginários antes de chutar ao muro e marcar um golo de antologia.

Entre dentadas na maçã e fintas passou-se 1/4 de hora. O Miguel apareceu todo limpinho e mostrou-lhe os cromos novos que tinha. Ele tinha conseguido o Diamantino do Benfica.

- Que sorte! E trocaste por quem?

- Pelo Bento.

- Xiii tenho 3 cromos do Bento, vê lá se me arranjas o Diamantino lá com os teus colegas.

Jogaram à bola e depois foram ver se o Zé já podia vir brincar. Treparam para um muro com quase 4 metros e foram até ao quintal do prédio do Zé por cima dos muros. Um gato fugiu assustado e o cão do pátio do Nº 6 ladrou que nem um doido. A Dona Esmeralda apareceu à janela a ralhar que iam cair dali e que ia fazer queixa. Apanharam umas nesperas pelo caminho e provaram, o Miguel deixou cair um pingo de sumo na camisola.

- A minha mãe diz que essas nódoas não saem. O Miguel encolheu os ombros e seguiram.

 

O Zé já podia vir brincar e os três partiram rua abaixo. O mundo estava ali para ser descoberto, havia sempre mais pátios, mais miúdos, mais cromos até ao pôr do sol.

 


publicado por BigJoao às 00:19
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Segunda-feira, 28 de Fevereiro de 2011

Parabéns!!!!

Parabéns à minha filha mais velha que faz hoje 18 anos.

Atinge hoje a maioridade. Um marco no crescimento de qualquer ser humano.

 

Um abraço do tamanho do mundo que, como sabes, é todo teu por direito e mérito próprios.

 

sinto-me:

publicado por BigJoao às 12:17
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Quinta-feira, 10 de Fevereiro de 2011

Insanidade

A notícia saiu no jornal sem qualquer enfase em especial, escrita num tom quase monocórdico.

 

Resumindo, uma criança de 4 anos assiste ao avô a matar o pai, depois deste conseguir a visita da filha após longas demandas em tribunal. Pai advogado, mãe juíza em Ílhavo (terra que até conheço), num portugal supostamente desenvolvido.

 

http://jornal.publico.pt/noticia/09-02-2011/violadas-regras-de-visitas-a-menina-de-oliveira-do-bairro-21255173.htm

 

Até onde pode ir a cegueira de alguém? O que terá passado pela cabeça do avô? E do pai? E da menina?

Vidas destruídas em nome da "razão". Estupidamente, sem nenhum brilho, sem um rasgo de lucidês.

De repente, pus-me a imaginar os contornos da situação... nem sei o que se passou, nem o que terá justificado o ato.

 

 

.........

O sacana anda há tanto tempo sem pagar a pensão de alimentos. Trabalha com recibos verdes, não declara o que ganha e ninguém o consegue obrigar a pagar a pensão. Nem o tribunal! Quem é que precisa de recibos de um advogado?

Agora quer visitar a menina!? Eu vou lá mostrar-lhe que não pode fazer o que quer. Pensa que manda em quem?

É melhor levar a arma, não vá o tipo passar-se e querer levá-la... tão pequenina, nem percebe o pai que tem.

 

- Já te disse que sou eu que vou, se lhe dá para a querer levar, para fugir, vais fazer o quê? E o avô gosta demasiado de ti para deixar que te levem, não é querida?

Vai correr tudo bem, mas se ele se arma em parvo vai-me ouvir! Recebi-o em minha casa como se fosse um filho, não tem o direito de vir gozar com as pessoas! Não dá nada e quer ver a menina!?

 

- Vamos lá querida. Não percebes nada do que se está a passar não é? Vamos ver o teu pai. Anda.

 

Queria que me afastasse para estar com a menina. Queria ir para perto do carro. Eu percebi bem o que ele queria. A menina começou a chorar, a discussão estalou, quis dizer-lhe duas ou três coisas. Ele respondeu sem respeito nenhum, sem nenhuma consideração. Usa as pessoas como se fossem toalhetes.

- Já disse que fico aqui! Largue a menina, a visita acabou! Você não me empurra!!! Largue-me!!

 

Pam, pam, pam, pam, pam!!!!!!!!

O silêncio... nenhum ruído, nem pássaros, nem cães. O trânsito parou...

Foto de autor. Todos os direitos lhe pertencem.

.........

 

Finalmente vou ver a minha filha!! Tenho tantas saudades dela, das mãozinhas, das bochechas, da voz...

Pensavam que me podiam impedir de estar com ela, mas o tribunal deu-me razão! Seja lá onde for, em casa, num sítio público, no cinema, na prisão, tenho o direito de estar com a Cláudia.

Nunca me deixam ver a miúda mas exigem que pague a pensão!? Bem os tramei! Sempre tiveram dinheiro, se querem luxos, que paguem!

Por esta altura já lhe fizeram a cabeça, que o pai é mau, que não gosta dela, que se gostasse não fazia estas coisas... a ver vamos.

 

- Vou buscar a Cláudia, está-me mesmo a apetecer um abraço dos dela.

Bolas! Cheguei 15 minutos adiantado ao largo. Vou comprar cigarros e o jornal. Trouxe um boneco para ela. Que nervos esta espera.

 

Lá vêem eles, nem vou falar ao velho.

- Cláudia!!! Dá cá um beijo!

- Cláudia! Anda cá ao pai. $#%"

- Já lhe fizeram a cabeça, nem um beijo me dá!?

Baixou-se e abraçou-a. Apertou-a contra si, contra o seu peito.

- A mãe? Pergunta a Cláudia.

- Agora estás aqui com o pai. Anda até ali para estarmos os dois sozinhos.

- Não me apertes pai! Mãe!!! Começa a chorar.

O avô pega num braço da Cláudia e diz que a visita acabou.

- Era o que faltava!!! Estou há 4 meses sem a ver e agora levam-na ao fim de 2 minutos!? Eu sou o pai dela e ela vai ficar aqui comigo.

Empurrei o velho... a Cláudia chora... não tem que se meter entre pai e filha!

- Pensam que são donos dela, mas é a MINHA filha! Eu é que devia autorizar se estão com os avós ou com quem quer que seja!!!

- Pára de chorar e anda cá.

O velho reage com insultos, leva a mão ao bolso, tira uma coisa preta e oiço uma série de estrondos. Que estranho... de repente o silêncio... sinto-me empurrado para trás e estou a ficar sem força... que estranho... sinto a camisa molhada... caio no chão... a Cláudia liberta-se da minha mão... não vás! Ainda nem te dei o boneco...

 

 Madeleine Peyroux - Dance me to the end of love


publicado por BigJoao às 13:16
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Segunda-feira, 17 de Janeiro de 2011

a vida tem destas coisas

Dizem que a vida continua... e continua, continua. Sempre contínua, numa sucessão de altos e baixos contínuos, não contíguos.

Por vezes parece que assisto na plateia a um sonho mal realizado, com maus atores a interpretarem um mau argumento. A espaços somos surpreendidos por um bom filme, uma situação inesperadamente agradável, como por exemplo as músicas abaixo:

 

 

ou mesmo esta:

 

A espaços um candidato presidencial fala em valores que nos são caros, ainda que os atire para a mesa numa cartada de sueca mal ensaiada. A espaços as pessoas surpreendem-nos com uma palavra, um olhar cúmplice, um jantar bem conversado, um bar bem musicado. A espaços somos mais nós.


publicado por BigJoao às 15:54
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Quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

Educação católica

Não posso deixar de partilhar esta história contada na primeira pessoa. Tive uma educação católica, mas parece que vou ter de fazer um esforço para me lembrar e re-avaliar os valores que me transmitiram. Ainda falo eu de muçulmanos... até transcrevo o post...



No topo do ranking das escolas: o "meu" colégio Mira Rio ou o meu mergulho no opus dei
por Isabel Moreira

Ontem passei os olhos por aqui e fiquei a saber que o colégio que frequentei entre os 3 e os 14 anos, este ano, ficou no topo do ranking das escolas. Cada pessoa é um mundo. Cada pessoa tem a sua
experiência. Os pais são livres, naturalmente, de escolherem a escola dos seus filhos. Mas nem sempre os filhos, quando são pequenos, bastante pequenos, contam aos pais o que os amedronta. Lembro-me da provocação do C. Hitchens ao perguntar se a religião é abuso de menores. Às vezes é.
No Mira Rio onde cresci, nunca ouvi falar de um deus misericordioso, de um deus pai, nunca ouvi falar de amor. A religião foi-me essencialmente incutida por duas vias: a via dogmática, que se traduzia em muito cedo já saber declamar as provas extra-bíblicas da existência de cristo; e a via do medo, esta muito eficaz, porque o pecado, venial e mortal, nas suas consequências, se não sanados, eram ilustrados até à náusea. Insistia-se bastante no limbo, mas, sobretudo, e este é o aspecto fulcral do meu Mira Rio,
havia uma atenção doentia, por parte do colégio e do preceptorado, aos pecados da carne. De resto, os sacerdotes do opus dei ajudavam no terror. A primeira aproximação que tive às consequências do fenómeno do desenvolvimento (futuro) do meu corpo e da minha cabeça pecadora foi a explicação de que o dito corpo era o templo do espírito santo.
Ora, o templo não pode sentir o que quer que seja. Isto foi terrivelmente explorado ao ponto de ser convocada uma reunião com a directora do colégio no dia em que a mesma entendeu que nós, a minha
turma, já teríamos sido visitadas por um acontecimento que inicia fatalmente a inclinação para o pecado da carne, de resto bastante provocado por uma espécie que nos era estranha - os rapazes. Esse
acontecimento era a menstruação. Sim, ele foi-nos explicado em associação com o pecado. A tarde estava amena, eu era muito pequena, mais do que as outras, e pela primeira vez na vida percebi a dor da
diferença. É que eu ainda não era menstruada. Eu nunca tinha pensado em sexo. Quando a directora desatou a falar no fenómeno sanguinário, no pecado, na gravidez fora do santo matrimónio, na propensão
masculina para nos atrair para o pecado, senti-me uma ilha e, claro, comecei, nesse dia, a pensar em sexo. Na confissão, precedida de uma lista de presença pública semanal, recebíamos uma folha com os dez mandamentos e para cada um sugestões de pecados. Assim, o nosso exame de consciência seria induzido e mais completo. No sexto mandamento, o fatídico da castidade, perguntava-se, por exemplo: demoro-me, no banho, a contemplar o meu corpo? Lembro-me de ser muito nova e de pensar demoradamente nesta pergunta. Lembro-me de tomar banho em dois minutos para não pecar. E lembro-me de pensar demoradamente noutras perguntas do mesmo calibre. Tal como na inquisição, a sugestão é tão minuciosa que a criança acaba por acreditar que fez aquilo, mesmo que o não tenha feito, e que se o fez cometeu o tal pecado digno do fogo que a virgem maria fez a graça de mostrar aos três pastorinhos e que a professora nos deu a ver ilustrado num desenho. O sacerdote fez-me perguntas de uma minúcia que nunca vi, como advogada, serem feitas em tribunal. O meu corpo, o corpo de uma criança, foi escrutinado atrás de uns quadradinhos de madeira, o confessionário. Havia também a professora sofia, que depois de uma asneira grande que fiz com 9 anos, vendo-me comungar, me levou para uma sala fechada e explicou-me que eu recebera do corpo de cristo em pecado mortal. Convenceu-me, sem apelo nem agravo, de que estava condenada ao inferno. Passei muitas noites da minha quarta classe a adormecer com medo, com uma ideia da esperança de vida, tendo a minha por inútil, já que fatalmente condenada ao inferno. A professora Sofia torturou-me de muitas outras maneiras. O ensino era bom? Sim. Havia professoras boas? Sim. Havia boas pessoas? Sim. Fiz amigas e apesar de tudo, com elas, recordações felizes? Claro. Mas às vezes a religião é abuso de menores. Este é
apenas uma parte do meu relato pessoal. Não é um relato de ensino de sucesso.
Aos 14 anos fui para a escola pública. Fiquei em choque durante um mês. Descobri rapazes, pobres, ateus, conflitos sociais e debate livre de ideias. Ao mesmo tempo, descobri outros católicos. Católicos que me falaram pela primeira vez em amor em vez de pecado, em perdão em vez de castigo, em fazer em vez de apenas rezar.
Descobri, com esses católicos, a acção social. Descobri que há um deus de todos que a todos ama e que a todos aceita. Na verdade, um pai, que nunca, por natureza, renega um filho.
Foi assim na escola pública, no meu Rainha Dona Amélia, que não ficou no topo do ranking das escolas, que me deram a dimensão de pessoa. Mais tarde disse adeus a deus. Mas sem mágoa, porque foi de outro deus que me despedi.

http://jugular.blogs.sapo.pt/1276512.html

Dá que pensar... a foto coloquei eu, o post pode ser lido no blog acima.


publicado por BigJoao às 15:48
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Segunda-feira, 10 de Março de 2008

Professores 100 000 - Ministra 1

Esta Ministra da Educação conseguiu um feito raro com a sua igualmente rara capacidade de comunicação. Conseguiu unir e mobilizar 70% de uma classe profissional inteira contra ela.

Mais uma confusão de Ministra Queria ter posto aqui a imagem da ministra, mas não consegui. :)

A capacidade de comunicar uma decisão é tão ou mais importante que a decisão em si. Generalizando, a forma é tão importante como o conteúdo. Nunca pensei ser possível existir alguém tão inapto a comunicar como esta senhora.
Alguém acredita na bondade de alguma medida que ela venha a tomar daqui para a frente? A não ser que volte a contratar os 70 000 profs que ficaram de fora nos concursos, o que a colocaria numa posição completamente exposta ao ridículo.

Insistir numa ministra assim, é um erro tão grande como o da política seguida até agora.

Definam uma Estratégia para a educação e atrevam-se a levá-la por diante. Comuniquem o que querem fazer e o porquê. As pessoas não são estúpidas, também têm que gerir os orçamentos (magros) lá de casa e sabem que por vezes é preciso fazer cortes.
Expliquem porque é que o dinheiro vai para o aeroporto e vias de acesso e não para escolas e hospitais. Expliquem para o que dá o dinheiro do TGV e auscultem a opinião pública. Emagreçam e automatizem os processos do Ministério da Educação. Este fim de semana ouvi um professor defender que se fechassem o ministério durante 3 anos, que os profs endireitavam o sistema de ensino.
Por vezes há demasiado ruído, medidas boas acabam por não ser levadas até ao fim por falta de empenho, falta de crença, etc.


publicado por BigJoao às 16:57
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