Domingo, 8 de Abril de 2012

O desânimo

Esperou de olhos fechados que o despertador tocásse. Ouvia o som do ponteiro dos segundos, cada clique soava como se andasse alguém de salto alto no andar de cima... devagar... muito devagar.

O despertador tocou. Sentou-se na cama com os pés no chão sem intenção de se levantar. Os braços fortes, pesados sobre as pernas, as mãos grossas inertes, as unhas paradas. Acordou já cansado, deixou o desânimo ainda deitado na cama e durante meia hora fez os gestos automáticos que sempre fazia, tudo o que sempre fazia.

 

 

Ficou pronto mas não tinha nenhum sítio onde ir. A fábrica continuava a funcionar, mas era praticamente só um armazém, um entreposto de produtos importados da China. Na sua idade poucas alternativas de emprego existiam, podia guiar um taxi, ser segurança, mas as alternativas eram poucas ou nenhumas e os empregos poucos.

Os filhos andavam nas suas vidas, com os seus problemas, não queria ocupá-los com os dele, nem ser um peso. Não se sentia útil. Sentia-se excedentário, a mais.

 

A mão rodou a maçaneta da porta. Não sentiu o vento frio a bater-lhe na cara, nem reparou nos olhares das pessoas, começou a andar sem rumo. Sentou-se na paragem de autocarro e olhou para os pés. Envergonhado voltou para casa, tinha saído de pantufas calçadas.

A cabeça sempre ocupada, sempre a pensar em círculo, é o que é e é no que dá.


publicado por BigJoao às 03:56
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