Sexta-feira, 18 de Fevereiro de 2011

Capítulo III

Abriu o frigorífico quase sem vontade de ver, sem fome que o justificasse. O pote daquele doce que lhe tinham dado continuava fechado com o mesmo bolor que tinha na semana passada, no mês passado... parecia que sempre lá tinha estado.

- Será que os outros alimentos percebem que o bolor ali está e começam a produzir o seu próprio? Talvez sejam competitivos...

Voltou a fechar a porta sem nada tirar e dirigiu-se à sala. Olhou os livros um pouco por todo o lado, não lhe apetecia ler, nem o que tinha começado nem nenhum outro. A Tv não passava nada de jeito há uns anos. Gostava de ver o "Biggest Looser", um programa em que os concorrentes profundamente obesos, gordos em todos os aspetos em que se pode sê-lo, se esforçavam por perder peso, por mudar de vida. Recuperavam as formas, a expressão, as caras, os traços no rosto, a vontade. Tinha perdido o último episódio da série e não sabia quem tinha ganho... mas não interessa. Todos ganharam.

Da aparelhagem de som parecia-lhe que não saía nenhum som repousante, só sons ansiosos. Pegou no casaco e saiu. A desarrumação em casa não o deixava lá estar sem uma pontinha de sentimento de culpa por nada fazer, por não arrumar. Atravessou a entrada do prédio e saiu. Uma chuva miudinha esperava-o à porta e acompanhou-o até ao carro a sussurrar-lhe desconforto. Arrancou ainda sem ter a certeza onde ia. Decidiu ir até Alcochete, era suficientemente longe para pensar no porquê do desconforto que o envolvia e só conseguia pensar em coisas boas associadas a essa terra.

Alcochete 1

Sempre em linha reta lembrou os dias em que, na auto-estrada devorava quilómetros em nome de emoções. Nunca lhe custaram a fazer enquanto as emoções o esperaram no fim da viagem, quando o abandonaram, a distância tornou-se pesada, sem sentido. A lembrança de tudo o que viveu deixou-lhe a vista enublada, tantas horas a falar, a tocar, a sentir, a ouvir. Os sentimentos à flor da pele, o prazer de estar, de ver sorrir, de conhecer... tinha saudades de tudo isso. As suas vidas tocaram-se para logo se afastarem, numa dança de coreografia exótica. Estranho como as coisas se evaporam, se desfazem, se desmontam. Só nos resta guardar a lembrança do todo e algumas peças, se for caso disso.

Em Alcochete esperava-o um café num sítio indistinto igual a tantos outros, com sons de máquinas de moer café, de cervejas a serem abertas, de colheres a baterem em pratos, de registadoras. Há aqui uma devoção a D. Manuel I só porque nasceu ali, como se não tivesse sido um tonto, indigno primo e herdeiro de D. João II. Um tipo que expulsa os judeus só para agradar aos vizinhos espanhóis, que instaura a inquisição pelos mesmos motivos... acho que está tudo dito.

 


publicado por BigJoao às 15:11
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